A prática mediúnica e o desenvolvimento afetivo
- 30 de abr.
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Gabriel Lopes Garcia
O trabalho com a mediunidade pode ser um caminho de amadurecimento espiritual para aqueles que o exerçam com seriedade e responsabilidade. A convivência com os colegas de tarefa e o contato com os Espíritos comunicantes têm potencialidades educativas para o desenvolvimento de bons hábitos e a prática de virtudes.
O grupo mediúnico precisa cultivar autênticos vínculos de amor entre seus integrantes e promover interações baseadas no respeito. A qualidade dos relacionamentos e a afinidade de propósitos é essencial para a construção e o cultivo de um ambiente interpessoal harmônico, que impacta poderosamente na capacidade espiritual da reunião.
As relações humanas são complexas e desafiadoras. Um grupo mediúnico equilibrado e frutífero necessariamente se fundamenta na convivência fraternal de seus participantes. As sutilezas e demandas do trabalho com a mediunidade exigem um todo coeso, formado por pessoas que se gostam, se respeitam e buscam os mesmos objetivos na prática mediúnica.
Perante tal contexto, reconhecendo-nos ainda imaturos no trato uns com os outros, precisamos fazer esforços para estabelecermos com os colegas relações amistosas que favoreçam a elevação espiritual do trabalho. Com esse desejo, mobilizamos recursos para melhorar a interação e, por conseguinte, nesse processo também nos transformamos em pessoas mais amadurecidas do ponto de vista psicológico.
Para manter a harmonia do conjunto, vamos valorizando a habilidade da escuta atenta; aprendemos a discordar sem ferir a suscetibilidade alheia; percebemos quando alguém não está num bom dia e lhe damos espaço emocional. Recolhemos as experiências (alegres ou sofridas) do colega, congratulando ou consolando. Na tarefa mediúnica vamos formando uma família espiritual com base no respeito ao outro, no bem querer mútuo, no engajamento da colaboração coletiva.
Este é um dos efeitos que não se sabe a princípio ao ingressar na prática da mediunidade. A busca pelo cultivo de bons relacionamentos interpessoais é um estímulo ao aprimoramento das habilidades sócio-afetivas da convivência. Por extensão, outro resultado deveras interessante, levamos esse aprendizado para as outras instâncias de nossas vidas. Por exemplo, conseguimos ser mais calmos em certas situações de tanto praticar com os colegas de trabalho mediúnico.
Para os que participam de reuniões equilibradas, é óbvio constatar que a ambiência espiritual elevada facilita a disposição para compreender o próximo e suas limitações. Raramente encontramos outros lugares com essa característica. Assim é a existência moral em nosso planeta e não podemos fugir disso. Mas a frequência e o hábito desenvolvido no grupo mediúnico nos fortalece para os enfrentamentos que ocorrem normalmente em cada setor de nossas convivências.
Além dos “vivos”, amadurecemos também no trato com os “mortos”. A variedade humana comparece em cada comunicação mediúnica, do pedófilo cínico à mãe que nunca desiste. Muitas vezes entabular diálogos com Espíritos que praticaram coisas horríveis, deploráveis. Outras tantas são cargas intensas de dor íntima, lamentos pungentes. Há os que perseguem, os vingadores, os perdidos e por aí vai.
Às vezes, o relato do Espírito atinge valores importantes para nós ou nos lembra de alguma vivência semelhante. Essa é uma das belezas da reunião: humanizamos nosso olhar para o comportamento de vivos e mortos, compreendemos que no diálogo entre mundos (corporal e espiritual) são pessoas interagindo em diferentes planos existenciais. Espírito é gente como a gente. Ama, odeia, chora, sorri. Recolhe no além túmulo as consequências do que fez (e suas intenções).
Amadurecemos ao perceber que em algum momento futuro seremos nós mesmos os Espíritos a se comunicar através de outros médiuns. Nesses diálogos, aprendemos a escutar mais do que falar; a selecionar argumentos e modos de dizer adequados a cada situação; a amar o comunicante independentemente de quem seja e do que estiver narrando. Nosso foco é ajudar, sem a pretensão de “resolver” os problemas que competem a cada um. Aprendemos a validar os sentimentos alheios, a entender os motivos das ações e a frear a ânsia de punir quem julgamos culpado. Cada Espírito encontra na própria consciência céu ou inferno particular.
O benefício de conversar com os Espíritos é que habitualmente são mais sinceros e espontâneos sobre o que fazem, sentem, pensam e desejam. Perdem o verniz social típico dos encarnados. É somente a minha impressão, talvez você entenda de outro modo. Isso para mim é um estímulo para me observar intimamente de forma mais honesta. Aumenta minha flexibilidade para reconhecer e nomear estados íntimos, mesmo e principalmente os que considero desagradáveis, sombrios, constrangedores.
Portanto, sob o aspecto da atenção e do aprimoramento das habilidades para cultivar bons relacionamentos interpessoais e ao desenvolvimento de empatia e compaixão, o trabalho mediúnico regular se apresenta como território fértil de ferramentas e oportunidades. Podemos amadurecer nessa tarefa, desde que sejamos humildes e dedicados.



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