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  • Estupro coletivo e camaradagem brutal

    Por Gabriel Lopes Garcia Semana passada veio a público mais um crime que é o retrato da sociedade brasileira — misógina —, que não tira as leis do papel e não se compromete com a metade de sua população — as mulheres. O caso é chocante pelo fato em si e pela leniência inicial do poder judiciário. No Rio de Janeiro, uma adolescente de 17 anos marcou um encontro com o ex-namorado. Ele levou quatro cúmplices para um estupro coletivo premeditado . Não agiram por impulso: foi organização, convite e conivência. Cinco homens contra uma garota diz muito mais sobre a nossa sociedade do que qualquer debate teórico.   Masculinidade violenta Assustam o crime e a naturalidade como foi executado. Um homem chama e os outros aceitam. Ninguém hesita, não denuncia nem impede : pelo contrário, participam. Como se fosse banal e o corpo da menina fosse um território disponível para a imposição sexual. Essa nova geração criada nas mídias sociais está contaminada pelo ódio às mulheres. Mas a misoginia não brota do nada: é ensinada, reforçada, compartilhada e financiada. Os jovens combinaram o estupro coletivo: não é “desvio” individual ou monstruosidade. Isso é resultado de uma cultura que normaliza, incentiva e lucra com a desumanização da mulher . Reconhecer e combater essa educação cultural machista é tarefa urgente de todos nós.   Legislação não basta Sempre que estes crimes bárbaros são noticiados, há um clamor por mais leis e punições mais severas. Concordo parcialmente, pois já temos boas leis. Precisamos executá-las de modo eficiente, porque é real a sensação de impunidade e de que está desprotegida . A morosidade do poder público e a revitimização também são reais. Essa situação não é por acaso, mas o reflexo de um projeto político. Por isso precisamos de políticas públicas sérias; de educação afetiva e sexual com ênfase no respeito e no consentimento ; de enfrentamento da misoginia no currículo das escolas; e de efetiva responsabilização. Não é suficiente apenas a prisão depois da tragédia, mas um sistemático trabalho de prevenção antes dela.   Machosfera Além das ações concretas acima elencadas, temos de lidar com o contexto de uma geração emocionalmente adoecida, formada no ambiente tóxico das redes sociais virtuais . Não podemos ignorar que a misoginia está impregnada em parcela expressiva da juventude que cresceu assistindo pornografia, participando de fóruns de ódio e sendo bombardeada por discursos masculinistas. Multiplicam-se lucrativos perfis de homens, com milhares de seguidores, ensinando a categorizar mulheres “de valor” e mulheres “sem valor”. Regulamentar essas empresas bilionárias ( Big techs ) é fundamental para o combater a misoginia, o estupro e o feminicídio. Os garotos aprendem na internet, desde a infância, as piores coisas machistas e violências de gênero como se fossem naturais e desejáveis.   Transformação cultural O estupro coletivo dessa adolescente escancara uma falha social e educacional profunda . Infelizmente, não é um fato isolado. É sintoma da misoginia. Se tratarmos esse crime como exceção, ou os perpetradores como “monstros”, continuaremos produzindo mais meninas vítimas traumatizadas (quando sobreviventes) e mais homens convencidos de que podem tudo.   Compete ao meio espírita tomar parte ativa nesse enfrentamento . Livros e palestras precisam urgentemente atualizar as abordagens sobre a sexualidade e a cultura do ódio contra a mulher. Há muito machismo disfarçado de doutrina. Precisamos educar crianças e adolescentes espíritas em um novo paradigma de gênero, ensinando-os a reconhecer e combater a misoginia. Artigo em parceria com Blog “Estudos de Cultura Espírita” ( https://medium.com/@cultespirita) de 08/03/2026

  • As raízes da misoginia no coração dos seres humanos

    por Magdala Monteiro É de estarrecer os momentos atribulados que estamos vivendo em sociedade, quando a mulher se tornou uma vítima diária do feminicídio. O Brasil registra um aumento significante quanto aos casos de feminicídio, já que em 2025 o registro é um recorde histórico, onde, em média, quatro mulheres foram assassinadas por dia, afastando-as do convívio familiar, do exercício profissional etc. O medo insiste em fazer companhia as mulheres, a atenção tem sido redobrada e nem as leis existentes e os constantes meios de combater os abusos de toda sorte os tem evitado, muito pelo contrário, parece mais uma epidemia. Vivemos em sociedade onde as mulheres que carregaram no ventre um ser por longos meses, os alimentaram e deram muitas vezes suas horas mais preciosas nos cuidados não são mais respeitadas. Nesse dia, as mulheres se organizam e saem às ruas para se manifestarem, através de diversos movimentos em defesa de suas vidas, fazendo a manutenção do que é constitutivamente um direito de todos os seres. A escritora do livro: Mulheres que correm com os lobos, Clarisse Pinkola  pontuou o seguinte: “Não se pode domar uma mulher que foi rasgada e se costurou sozinha. Uma mulher assim jamais voltará a caber em moldes impostos.” A alma feminina é feita de coragem e memória ancestral. E a autora ao dizer assim quer nos explicar que a mulher é alguém que passa por inúmeras dificuldades, enfrenta todos os dias por mudanças tanto internas quanto externas e luta obstinadamente com suas mazelas para criar os homens do futuro. Portanto, convoco a todos e todas que raciocinem a partir do pensamento de  uma grande mulher, pensadora contemporânea, Bell hooks que em sua obra “Tudo sobre o amor e novas perspectivas”, nos faz pensar sobre ter sido a mulher o grande alvo de opressões históricas, porque ela aprendeu a aceitar as expectativas que limitam sua liberdade emocional e social. O patriarcado moldou a identidade feminina para servir, agradar e cuidar dos outros, muitas vezes às custas da própria autonomia. “A socialização das mulheres vem no sentido de acreditar que seu valor está em servir afetivamente aos outros, impedindo que elas desenvolvam um senso saudável de amor-próprio. Se a cultura ensina mulheres a praticar um amor que é mais servidão do que reciprocidade, como ser feliz, como se perceber como alguém que tem valor? O patriarcado criou homens emocionalmente analfabetos e mulheres emocionalmente sobrecarregadas. A desigualdade está mantida, porque as mulheres “sabem amar”, mas não são amadas na mesma medida. As mulheres estão privadas de receber o amor verdadeiro, pois seu papel social é apenas oferecer cuidado. E se sua expectativa for o amor romântico quanto realização máxima de vida, as mulheres são estimuladas a aceitar quaisquer comportamentos em nome do amor. Tem que vir a resistência feminina que só através o amor-próprio que seu empoderamento se dá. A mulher precisa ser educada para perceber que não deve aceitar violência emocional, para reconhecer que merece reciprocidade, e redefinir o amor como algo que exige igualdade e ética. Bell Hooks diz que quando as mulheres praticam amor-próprio, elas rompem com a lógica patriarcal que as domestica emocionalmente. Eu não posso deixar passar a oportunidade de levar o pensamento espírita para essas reflexões, onde a conversa é sobre a misoginia, o feminicídio, o machismo, a desvalorização da mulher. E, portanto, se faz urgente que os centros espíritas abram suas rodas de conversa para a informação desde os pequenos sobre o machismo estrutural, para que todos possam compreender sua tarefa aqui nesse mundo adverso, valorizando as criaturas que estão ao seu redor. É preciso compreender a que viemos, qual a nossa proposta de vida.  Não basta repetir os conceitos espíritas e colocar num patamar inalcançável porque somos imperfeitos, mas demonstrar como é viver, cada qual com suas habilidades seguir, se aperfeiçoando e combatendo o mal ao nosso redor. Ilustrando o tema, no livro: No Invisível, capítulo 8, Léon Denis anotou sobre a trajetória histórica da mulher : “A benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original. O mito de Eva reforçou nas coletividades que a mulher é perigosa, pois está sempre de parceria com o mal, e que as vozes que a dirige são demoníacas. Durante longos séculos a mulher foi relegada para segundo plano, menosprezada, excluída (...) Por uma educação acanhada, pueril, supersticiosa, a subjugaram; suas mais belas aptidões foram comprimidas. A situação da mulher, na civilização, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem por si os usos e as leis; mil perigos a cercam; se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio – tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas. O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contacto, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece.” Apesar de Denis mostrar que naquela época nem leis protegia a mulher, hoje as leis são presentes, há as instituições e recursos que prometem atenção e cuidado, mas a mulher segue sobrecarregada e violentada, pois na prática isso tudo não tem atendido a demanda delas e continua crescente o índice de feminicídios. Infelizmente em qualquer meio, no lar, no trabalho, na casa religiosa, na escola e nas ruas... As mulheres têm que lutar, resistir, educar-se e educar os seus em todos os meios que esteja. Os eventos misóginos resistem em se apresentar, uma vez que a misoginia , conforme nos diz Contardo Calligaris, famoso psicanalista, se encontra enraizado nos corações dos seres humanos. A falta de amor e o entendimento real do que seja amar ainda é muito grande, para que a sociedade não falhe com seu papel cuidador e fortalecedor da mulher, seja no meio social, quanto na educação dos que se formam nos lares. Uma importante proposta faz Bell Hooks às mulheres, para que não abandonem o amor, mas reivindique-o em sua forma verdadeira, a fim de que a promoção da sua dignidade, autonomia e de seu crescimento, estejam garantidos. Porque ela afirma que o amor autêntico é revolucionário para as mulheres, pois desafia diretamente as estruturas que as subordinam . Entendamos o que diz Bell Hooks sobre o amor não ser apenas um ideal, mas uma prática nos lares que formarão criaturas, educadas longe do machismo, não mais socializadas quanto indignas de amor, aprendendo sobre seu próprio valor, sendo vistas e aceitas, ensinadas acerca do que é verdadeiramente amarmos uns aos outros. E assim todos poderão se comprometer consigo mesmo e com suas parcerias.     Sigamos, portanto, de mãos dadas não só as mulheres, mas os homens também, reconhecendo os valores e que o papel da mulher, é onde ela quiser e que cada qual que saiba desempenhar o seu papel em sociedade, homens e mulheres. Deixo uma sugestão: Leiam mulheres!!! Estude sobre suas vidas, se comprometam com a vida contemporânea e aproveite cada minuto do seu viver no crescimento de um mundo mais justo.

  • Chico Xavier me disse

    Gabriel Lopes Garcia O legado mediúnico de Francisco Cândido Xavier é disputado pelos espíritas interessados em abocanhar seu capital simbólico e explorar a imagem dele. É um negócio lucrativo divulgar supostos segredos do médium, atribuindo-se a exclusividade da informação. Os comerciantes da mediunidade descobriram esse filão no Espiritismo brasileiro. Desde quando estava encarnado que Chico era tratado como pessoa extraordinária e, informalmente, converteu-se em um santo dos espíritas. Os livros sobre sua vida e “lindos casos” estão mais para o gênero hagiografia do que para biografia. Após a sua morte, a idolatria continua e os mercadores mediúnicos exploram a figura do médium em várias frentes comerciais: turismo religioso em Uberaba, eventos dos “amigos” de Chico Xavier e, principalmente, publicação de vídeos e livros com revelações bombásticas. O artifício mais utilizado é contar um segredo que teria ouvido pessoalmente de Chico Xavier. Os impostores falam em nome do médium defunto, dizem que foram orientados a guardar a informação somente consigo e que teriam a permissão de revelar tudo após a morte dele. A palavra do autointitulado revelador basta e não é possível verificar a veracidade das afirmações, por mais esdrúxulas que sejam. Ou seja, pessoas que tiveram algum contato com Chico usam isso como escudo contra as críticas que porventura recebem. Os comerciantes xaverianos alegam ter tido conversas particulares com o médium, nas quais ele supostamente teria feito várias revelações espirituais. Os exploradores mais inescrupulosos inventam até supostos encontros com Chico no mundo espiritual. A estratégia é usar o contato pessoal como fator de autoridade da narrativa. Dessa convivência teriam obtido acesso exclusivo a certas informações. Assim tentam dar credibilidade ao golpe e, simultaneamente, partem para o ataque, rotulando de perseguição qualquer dúvida sobre a autenticidade do conteúdo que revelam. Campo espírita De acordo com a sociologia, a disputa está no centro da noção de campo. De modo abrangente, um campo é um espaço estruturado pela relação entre “agentes” (pessoas ou instituições) que têm um interesse em comum. No campo espírita, os agentes são cada centro, federativa ou instituição, assim como cada médium, palestrante ou dirigente. O que os une é a relação de disputa permanente entre eles. No campo espírita, as posições dominantes têm mais prestígio, número de adeptos e influência, por exemplo, para indicar qual é a interpretação correta do texto kardequiano, quais são os erros, as ortodoxias e as heresias doutrinárias e assim por diante. A distribuição de poderes dentro de um campo é desigual. No meio espírita, o ramo chiquista adquiriu condições simbólicas e materiais para ter mais influência para definir o que é doutrinariamente “correto”. A mediunidade é a maior fonte de autoridade no campo espírita brasileiro. Chico Xavier é a principal referência de prática e conteúdo mediúnicos. Logo, os agentes disputam o capital simbólico do médium mineiro, posto que a sua obra já ocupa uma posição dominante. A estratégia é apropriar-se de sua imagem e discurso para tentar ocupar as posições mais altas do campo espírita. Parte daqueles que conheceram Chico Xavier encarnado instrumentalizam a convivência com ele para dar o verniz de verdade sobre o que afirmam ter sido dito por ele. Nesse contexto, a tática “Chico Xavier me disse” é muito bem-sucedida, pois muitas pessoas são curiosas com a intimidade do médium mineiro, ávidas por novidades e revelações, crédulas em qualquer informação sobre ele. A curiosidade pela aproximação Ainda encarnado, Chico Xavier já era figura de destaque no meio espírita e até mesmo além dos círculos espíritas, principalmente por causa das aparições na TV Tupi e das concorridas sessões de psicografia de cartas. Ele se transformou no ícone máximo do Espiritismo brasileiro, referência de mediunidade. Foi se construindo gradualmente a idolatria de sua pessoa. Naturalmente, sua vida e sua obra despertavam interesse na população: sempre faziam sucesso reportagens em revistas, matérias na televisão e livros sobre o médium. O livro “Chico Xavier na intimidade”, de Ramiro Gama, é o exemplo perfeito disso. O título mostra o valor do conteúdo, pois anuncia uma proximidade desejada pelo público ao oferecer casos inéditos com relatos pessoais do médium. De acordo com a propaganda de uma editora dessa obra, o diferencial é que a maioria dos casos ocorridos com o médium foram obtidos de convivência estreita e particular com o autor. Repare que há um valor agregado às narrativas, que é justamente o fato de serem oriundas da convivência com Chico e, muitas delas, relatadas pelo próprio médium. Desde o século passado que essa deferência ocorre também em outros formatos, em particular nas palestras públicas. É muito comum que tais casos, e opiniões de Xavier, sejam lançados como argumentos doutrinários de autoridade, pois se a “maior antena psíquica” da história falou, então é certo, deve ser replicado e aceito. Portanto, o interesse e a valoração da vida íntima de Chico Xavier e de suas posições sobre assuntos espíritas e mediúnicos, é uma característica marcante da comunidade espírita que foi iniciada ainda quando ele estava encarnado, e prossegue atualmente conduzida pelos chiquistas. É neste cenário que agem os comerciantes xaverianos. Mas, há duas diferenças importantes de comportamento das pessoas do tempo passado para os picaretas contemporâneos: (1ª) O conteúdo dos livros publicados no século XX eram passíveis de verificação da veracidade das informações com o próprio médium, que sempre foi acessível a qualquer pessoa interessada em interagir com ele; (2ª) Os antigos autores não auferiram lucro com as publicações, pois os direitos autorais eram doados para instituições filantrópicas espíritas ou para as editoras espíritas que as publicaram.

  • Refletindo sobre ontem, hoje e amanhã

    Por Magdala Monteiro A rememoração dos dias passados e das últimas realizações não é tarefa fácil! Mas e se observarmos que durante essa atividade podem surgir ideias, que em princípio não nos ocorreriam? Dá o que pensar! A promoção do nosso olhar para o dia de hoje é bastante reflexiva, pois pede um pouco mais de atenção para os momentos iniciais de um novo ciclo, onde a avaliação de nossos comportamentos no cotidiano entra em cena. Se inicia a identificação do que realizamos ontem, que se reflete agora e quem sabe se reconstruirá amanhã. Reflitamos sobre uma determinada questão: e se não estivermos sozinhos nessa empreitada? Para quem está afeito aos estudos do campo espiritual, é sabedor que vivemos próximos de um mundo rico de imagens e experiências, onde ideias paralelamente se tornam reais, embora sejam mais claras para uns do que para outros. Mas quando se evoca a espiritualidade que envolve cada qual, independente de uma percepção ou conexão precisa, o amparo chega. Ilustrando a reflexão, Léon Denis nos informa na obra “O Mundo invisível e a guerra”: (,,,)“O Espiritismo tem por finalidade familiarizar-nos com esse mundo pouco conhecido, com essas aptidões da alma que, quando está purificada e se desprendeu dos ambientes grosseiros, pode reproduzir os ecos, as vozes e as harmonias dos mundos superiores, tornando-se fonte de inspiração, de socorro e de luz por onde o influxo exterior desce até nós para nos retemperar e nos robustecer... É, principalmente, reprimindo tudo o que venha do eu egoísta que facilitamos a penetração das influências superiores.(...) Você se sente capaz de ter um olhar apurado para essa questão? A verdade é que todos somos conduzidos por outros mais experientes, que nos antecederam e nos inspiram para que alcancemos novas conquistas. Em muitas situações da vida nos acomodamos, os planos se frustram, enquanto as mudanças se tornam raras ou não são tão bem administradas. Mas os esforços sempre são nossos, e a ajuda sempre vem, e se as percepções estão apuradas, obtém-se a melhor condução, até nas situações mais implicadas, que nos são sugeridas através recados de terceiros, pelos sonhos ou pelas intuições. De posse desse aparato, a sugestão é que o primeiro passo seja dirigido ao que idealizamos, que beneficiará tanto a nós mesmos, como terceiros, rumo à prosperidade. O apoio recebido durante os dias de nossas vidas por serem múltiplos, vindos de todos os lados, algumas vezes chegam a ser explícitos, outras vezes é preciso maior atenção. A vida moderna favorece que fiquemos envolvidos com inúmeras coisas, tudo ao mesmo tempo, mas muitas das vezes as criaturas se acomodam nas suas casas, com a sua tv, o joguinho no celular (comum entre crianças, jovens, mas também com adultos), esse último promovendo o distanciamento uns dos outros. Aliás um grande fator da vida moderna importante para a meditação de todos. Já reparam como o alerta para o tempo ser bem utilizado e o alerta para se enxergar o nosso bem-estar, é grande?         Existe um alerta antigo, conta mais de dois mil anos, que é o “vigiai” (a si mesmo, aos próprios atos), é um facilitador a direcionar o olhar para a realidade e manter-se sob controle de si, e se distanciar da fantasia desmesurada que o mundo moderno oferece, e que remete a aceitação de qualquer demanda, sem pensar, privilegiando a acomodação. Abandonar o comodismo é tarefa urgente , pois ele não permite o nosso crescimento e consequentemente sugere a falta do domínio de si mesmo, nos adoecendo. Se insistimos apenas no nosso “conforto” adquirimos doenças do corpo e da mente, que se refletirão futuramente. Os estudos da neurociência relatam que acomodar-se em busca de conforto excessivo não é um estilo de vida a se escolher, porque ao se tornar crônico muda o comportamento, induz o cérebro a promover “atrofia estrutural”, os sinais aparecem no corpo, desenvolvendo doenças. A inatividade fornece a esse cérebro que necessita da repetição, conexões neurais associadas à preguiça, desmotivando o corpo, que precisa de movimento. Esses estudos comprovam o quanto as questões mentais estão sendo comprometidas pelos distúrbios causados pelo próprio ser humano,  que desatento e confortavelmente instalado no seu sofá não permite a função da neuroplasticidade que molda o cérebro, à serviço do seu bem-estar. Conforme Carla Tieppo, neurocientista brasileira, autora do livro “Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender Neurociência” vai explorar entre outros temas que “o comodismo” é a inércia sináptica . O cérebro prefere o caminho conhecido porque ele é "barato". A plasticidade é a ferramenta que temos para vencer essa inércia, mas ela exige um investimento inicial de energia (vontade e repetição) que o cérebro, por instinto, tenta evitar.        Parar, pensar e agir são as melhores propostas na manutenção de um raciocínio iluminado, que enxerga os benefícios. Há pequenas estratégias para atingirmos as metas, o objetivo que delinearmos para os nossos dias. E este momento vivido, agora, é único para nós!!!!      Se o aprendizado de enxergar ao redor: ver as habilidades das pessoas, reconhecer que  atividades são necessárias, o que já foi obtido, o que não se pode ter hoje, entendendo a situação de cada qual, não nos fizer melhores, não haverá compreensão de que estamos no caminho escolhido, que seja de nos desvencilharmos das velhas mazelas, que muito pesam, mais na alma do que no corpo. Um grande motivo para sair da comodidade e atuar por melhores aspirações, por desejos que construam o bem comum é focar na própria meta. Mas não esqueçamos dos pequenos autocuidados, de construção diária de novos hábitos, estimulando a criatividade ao redor. Quando somos capazes de oferecer, é porque construímos internamente e então as questões dos outros nos fará multiplicadores de boas resoluções, que somem no entorno.      A conquista de um degrau a mais na escala evolutiva, não é a de ficar trabalhando exaustivamente, mas visualizar na vivência terrestre qual é a nossa parte, onde estamos, preenchendo o nosso mais íntimo da forma mais plena possível, onde o bem-estar é de todos, e o crescimento é coletivo. Um calendário acabou de ser observado, e agora estamos a observar um novo, prontinho, nos oferecendo oportunidades de reconstruir o que não ficou bem resolvido. No aguardo por novos dias, diferentes e melhores, sejamos cientes que milagrosamente não se modificarão. Apesar dos novos desejos e da divulgação ampla pela busca da felicidade seja o “ter” cada vez mais, que fique claro: apesar da oferta de fórmulas mirabolantes para tanto, a conquista só vem se pusermos em prática o nosso planejamento, de olho em todos os alertas já elencados. Não contemos com a boa sorte para angariar prosperidade. Algumas festas encerram-se com inúmeras comemorações, inclusive a de uma grande confraternização para que os novos dias sejam coroados de benefícios e esperanças. Mas as cidades permanecem ornamentadas, em contínua festa, todos se enfeitam, e o comércio permanece em busca de clientes que já gastaram o que tinham, oferecendo novas aquisições para obter um tanto mais, mantendo assim os grandes negócios... Imprescindível continuar na busca, pois teremos que resolver os nossos inúmeros problemas, e até solucionando alguns de outros, com ou sem festividades. As minhas últimas palavras não são de pessimismo, ou contra as festividades, mas reflexiva, porque problemas sempre teremos, e o aprendizado é que a partir deles nos movemos, em direção ao progresso. Onde a nossa maior preocupação? Com o que passou, com o que estamos vivenciando ou com o que virá a ser? O amanhã está próximo e as novas conjunturas também! A partir de agora, novas rotas estão sendo traçadas e a realização é grandiosa, certos de que o poder de modificar está em nossas mentes e mãos. Lembremos: a plasticidade é a ferramenta que temos para vencer a inércia sináptica. Para manter a plasticidade em alta, o cérebro precisa de desafio . A novidade é o combustível que força os neurônios a buscarem novas conexões. Dediquemo-nos a leitura, a observação, a reflexão e a meditação das coisas do mundo, pois assim a nossa atenção, a nossa memória e a nossa saúde estarão garantidas e estabeleceremos pequenas regras para que nossa conduta seja a melhor e aos poucos as coisas sejam modificadas. Sem esquecer que o socorro da espiritualidade é constante, é diário, aprendamos  a nos manter conectados, pois muitas vezes atrapalhados conosco mesmo, não percebemos o apoio incondicional dos nossos queridos. À propósito desse amparo trago a experiência de Alan Kardec, registrada em Obras Póstumas, no capítulo “Meu guia espiritual”, quando ele questiona: “- Dissestes que seríeis para mim um guia que me ajudaríeis e me protegeríeis; compreendo esta proteção e seu objetivo numa certa ordem de coisas, mas, poderíeis me dizer se esta proteção se estende também às coisas materiais da vida? Recebeu como resposta: - Nesse mundo, a vida material representa muito; não te ajudar a viver, seria não te amar.” A reflexão para viver o hoje, reconstruindo a partir do que foi ontem e vivermos um amanhã estruturado é básica: promover a construção do cotidiano, com proatividade e com fé no apoio que recebemos para a realização do bem-estar a nossa volta. Trabalhar pela evolução é saber do potencial interior e favorecer a outros a informação, o acolhimento e o amparo. As leis naturais nos impulsionam ao progresso, que estimula todos os seres humanos a utilizar a sua capacidade de pensar, raciocinar, criar e favorecer o crescimento a sua volta. Essa é a grande revolução a ser feita em nossas vidas. A noção da imortalidade nos dá a força e a coragem de ser e de realizar no entorno com alegria, renovando ideias, criando recursos, usando as habilidades à serviço do bem comum. Em nós há o grande fator motivador que é nossa capacidade criativa que impede a acomodação, e nos move por novos caminhos, aspirando, desejando a reconstrução de um mundo mais justo e solidário.             Feliz hoje!!

  • Sobre o óbvio: Posicionamento sobre os desdobramentos do caso de uma menina estuprada

    Quando as obviedades da religião que seguimos fazem com que o mais importante seja impor a minha verdade ao outro, algo está muito errado. O que deveria ser manancial de equilíbrio e paz se transforma em fonte de arrogância e sofrimento. Daí, os religiosos se tornam “semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” [1]. Além disso, Jesus veio e disse algo ainda mais óbvio: “Aqueles que me dizem: Senhor! Senhor! não entrarão todos no reino dos céus; entrará apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” [2], mostrando a hipocrisia de alguns. A menina de 10 anos começou a ser estuprada com 6 anos. Do próprio tio. Engravidou. Foi chamada de assassina por religiosos católicos e evangélicos. Espíritas, utilizando recortes dos livros de Allan Kardec, também acusam e atacam a menina de 10 anos que começou a ser estuprada com 6 anos. E foi colocada em segundo plano. Ou seja: o caso tratado deveria ser o estupro de uma criança, mas o transformaram para que a culpa, de forma óbvia, caia sobre a criança-mulher. Diante desses desdobramentos afirmamos que é urgente que os espíritas debatam violência doméstica, aborto, feminismo, direitos sociais e tanto outros temas, não com a cabeça de alguém do século XIX, mas realizando paralelos sociais atuais. Nas casas espíritas, em seus estudos, não deveriam existir "tabus". Mas por atavismo religioso – e a lei de reencarnação auxilia o entendimento desse fenômeno – dificulta as tentativas de diálogos francos, onde o objetivo seja o crescimento intelectual e a emancipação dos seres. Por essas dificuldades certos temas são abafados por um silêncio constrangedor, impedindo qualquer debate de ideias com capacidade de crescimento geral. Assim, ainda é preferível, em muitos núcleos espíritas, a falsa paz, que dá uma sensação de segurança, mas que não passa de estruturas fincadas em areia. Para os que estão sinceramente mais preocupados com o destino do bebê, ignorando toda a problemática da situação, indicamos a resposta dos espíritos, em O Livro dos Espíritos, onde fica claro que, em situações onde a gravidez gere riscos de morte para a mãe, “preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.” [3] Ora, ser mãe precocemente tem riscos de saúde, como: bebê com baixo peso, falta de ferro e anemia profunda, pressão alta. E ainda existe o risco e a dificuldade durante o parto, por se tratar de uma estrutura óssea infantil e ainda não desenvolvida completamente, impossibilitando a passagem do bebê no canal vaginal, tendo que apelar para uma cesárea de emergência [4]. Ainda, em adolescentes sem nenhum tipo de planejamento nem apoio familiar, a gravidez ocasiona diversos problemas na vida da gestante e perpetua um ciclo de pobreza e exclusão social difícil de ser quebrado. Adolescentes pobres têm cinco vezes mais risco de engravidar que as mais ricas. Com filhos, dificilmente elas conseguirão conciliar os estudos, entrar no mercado de trabalho e ter independência financeira [5]. Agora, imagine essas questões postas para uma menina de 10 anos. Dados do Ministério da Saúde (2018) [6], dizem que 42% das crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual são vítimas recorrentes; 72% das pessoas estupradas são menores e 18% têm até 5 anos. A cada dez crianças e adolescentes que são atendidos no serviço de saúde após sofrerem algum tipo de violência sexual, quatro já tinham sofrido esse tipo de agressão antes. Por fim, gostaríamos de ver um movimento espírita dando apoio material e espiritual para as mulheres e meninas que passam por essa situação; demonstrando empatia, sofrendo junto, ampliando o debate dentro das casas espíritas, nos grupos de estudos. Que Jesus possa auxiliar na superação das obviedades atuais e que todos nós percebamos, verdadeiramente, uma obviedade ainda mais óbvia: “Filhinhos, não amemos de palavras nem de boca, mas sim de atitudes e em verdade.” [7] [1] Mateus, 23: 27. [2] Mateus, 7: 21 a 23. [3] KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, q. 359, kardecpedia.com [4] https://www.trocandofraldas.com.br/gravidez-na-adolescencia-riscos-e-suas-consequencias/#:~:text=Principais%20Riscos,Press%C3%A3o%20alta . Acesso em 17 de agosto de 2020. [5] https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/adolescentes-que-engravidam-sofrem-maior-risco-de-problemas-fisicos-psicologicos-e-sociais/ . Acesso em 17 de agosto de 2020. [6] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/42-das-criancas-e-adolescentes-que-sofrem-abuso-sexual-sao-vitimas-recorrentes.shtml . Acesso em 17 de agosto de 2020. [7] João, 3:18.

  • Irradiações na reunião mediúnica

    Por Gabriel Lopes Garcia As comunicações dos Espíritos são a atividade principal da reunião mediúnica, mas não é a única que realizamos nestes encontros regulares. Uma outra prática bastante comum é aquela conhecida como irradiação. Trata-se de uma ação mental coletiva, realizada pelos encarnados em conjunto com os desencarnados, que atuam sobre os fluidos espirituais, usando pensamento e vontade, dotando-os de propriedades e qualidades de interesse no contexto, e os direcionam para as pessoas sujeitas da atenção do grupo. A irradiação viaja, por analogia, na forma de “ondas” de pensamentos, enviadas ao Espírito, “vivo” ou “morto”, onde quer que se encontre, pois a distância física não é obstáculo. O trabalho é essencialmente mental, conduzido por alguém que usa da palavra e vai direcionando o grupo para focar vontade e pensamento em determinadas pessoas, com propósitos específicos para cada um que é lembrado. Quem está à frente vai dizendo explicitamente esses objetivos e o contexto de cada criatura alvo da irradiação para favorecer a compreensão e, portanto, a participação ativa de todos. Um grupo que está coeso, como uma orquestra funcionando harmonicamente, melhora a qualidade e potencializa sua capacidade de ação fluídica. A irradiação beneficia também aqueles que dela se ocupam, pois: ajuda a desenvolver a solidariedade perante a dificuldade alheia; treina a concentração mental e o uso do pensamento focado; ensina o respeito na partilha das próprias questões e/ou a escutar a experiência dos outros; e exercita a elevação mental, colocando intimidade em mais elevado patamar de vibração. Da minha observação limitada, percebi que o mais habitual é de se fazer a irradiação depois das comunicações mediúnicas. Existem, por sua vez, reuniões criadas especificamente com esta finalidade de irradiar para as pessoas que deixam seus pedidos em caixas nos centros espíritas. O papel para mim é suporte de memória. Anotamos para lembrar das pessoas e dos pedidos e para registrar alguns detalhes. Pedaços de papel, caderninho etc., tanto faz. O que importa é o sentimento. Lembro-me com carinho das reuniões no centro familiar no quintal da casa de minha avó paterna: tinha um caderno de atas no qual se anotavam os nomes para irradiação, a começar por todos os parentes, encarnados e desencarnados. O ritual era repetido em toda sessão. Mais do que simplesmente anotar, era uma manifestação de carinho, uma retomada semanal que já valia por uma espécie de vibração inicial positiva. Sempre digo isso para as pessoas que me perguntam sobre esse tema. O fato de anotar o nome de alguém em um pedaço de papel já é valioso, pois é fruto de uma mobilização oracional sincera. Suicídios em foco Estudar a obra e a vida da médium Yvonne do Amaral Pereira tem me ensinado a desenvolver um profundo respeito pela questão do suicídio em uma perspectiva espírita humanista. Dela aprendi, dentre outras coisas, a lembrar-me sempre dos irmãos que retornaram ao mundo espiritual pela opção do autocídio. Acredito que é uma forma de contribuirmos com todos os envolvidos na delicada situação, ao mesmo tempo educando-nos para abandonar os julgamentos sumários, as leituras apressadas do ato e o moralismo rígido com os Espíritos suicidas. São as primeiras pessoas de quem me lembro ao conduzir uma irradiação, rogando à Deus, nossa Mãe generosa, que os acolha onde quer que se encontrem, e que recebam nosso carinho, nossas melhores vibrações muito positivas desejando a renovação da esperança em seus corações, na certeza de que terão as oportunidades para se reequilibrar e se repararem diante da própria consciência. Que sintam o amor divino incondicional que lhes favorecerá, em tempo propício, as chances de recomeço. Nesse mesmo contexto, irradiamos em favor das pessoas encarnadas que têm ideações autocidas bem como para aquelas que já fizeram uma ou mais tentativas de suicidar-se. Rogamos aos Espíritos trabalhadores do bem que encontrem caminhos de chegar ao coração delas e as auxiliar no sofrimento que lhes extingue o ânimo de viver. Pedimos que se abram ao auxílio espiritual que vem de tantas formas criativas e se permitam ser cuidadas nessa fase tão difícil. Finalmente, também pedimos em favor dos “órfãos” dos suicidas, aqueles que têm de lidar com a perda de alguém de modo tão abrupto. Que não alimentem culpas indevidas pelo que aconteceu, que recebam o conforto possível diante do quadro e que consigam ressignificar suas vidas e dar prosseguimento aos seus propósitos reencarnatórios, guardando a certeza do reencontro com os amados em um futuro apropriado. Vibramos em favor de pessoas e instituições que trabalham na prevenção e na posvenção do suicídio, pedindo que sempre encontrem as pessoas e os recursos necessários para cumprir sua tarefa. E rogamos a intervenção espiritual para frear o sadismo de infelizes, deste e do outro plano, que incentivam e ensinam as práticas de suicídio, por vingança pessoal ou perversidade sem destinatário específico. Abrindo o leque As vibrações podem ser destinadas a qualquer pessoa que esteja no “radar” do grupo, a começar por aquelas próximas aos integrantes, que façam pedidos de suporte espiritual. Às vezes são familiares em terras distantes passando por agruras; de outras vezes parentes com graves problemas de saúde; pode também ser um companheiro de atividade mediúnica, afastado, por transtorno mental ou desafios da vida familiar; alguém com um pedido específico de ajuda e por aí vai. Habitualmente nos lembramos de irradiar em favor das instituições de saúde (hospital, postinho, UPA etc.), pedindo tanto em favor dos adoentados, quanto pelos seus acompanhantes (quem cuida também precisa ser cuidado) e pelos trabalhadores desses locais. Para todos rogamos que recebam os fluidos, as presenças e os conselhos espirituais que lhes sejam os mais adequados, pois sabemos que a saúde do corpo e da mente são bens valiosos e ficamos amuados em sua ausência. Finalmente, podemos pedir também em nosso próprio favor e daqueles que amamos! Temos por hábito mentalizar cada cômodo da nossa casa, irradiando fluidos positivos, salutares, que gerem um ambiente de harmonia e de proteção espiritual, envolvendo todos que ali residem conosco. Frequentemente, no momento da irradiação, sentimos com mais intensidade a presença amorosa dos Espíritos amigos, que nos envolvem em sua atmosfera fluídica. Irradiar, portanto, é uma atividade que nos liga às necessidades dos outros e às nossas, produzindo efeitos calmantes, recuperação das perdas fluídicas, e facilitando a ação dos Bons Espíritos. Os fluidos espirituais assim trabalhados agem sobre o físico tanto quanto sobre o moral.

  • A leitura e o estudo como fonte de prazer

    por Magdala Monteiro “O estudo é a fonte de suaves e nobres prazeres; liberta-nos das preocupações vulgares e nos faz esquecer as tribulações da vida. (...) O livro é um amigo sincero, bem-vindo tanto nos dias felizes quanto nos dias ruins”. Assevera o nosso querido filósofo espírita, Léon Denis, em sua obra, Depois da Morte,  referindo-se a dedicação de uma leitura útil, que instrui, consola, anima, diverte e ainda propicia conhecimento. O prazer que se tem ao participar das ideias daquele que gravou através de seus escritos, os pensamentos que alimentava, é inenarrável. Além de ser também uma grande oportunidade de comunicação pelo pensamento que estabelecemos com o autor escolhido. Podemos identificar em cada autor lido, o valor de sua alma inscrita em cada linha de suas obras. Você já experimentou identificar a ideia de um autor? Denis indaga: “Não será uma das raras felicidades desse mundo comunicar-se pelo pensamento com os grandes espíritos de todos os séculos e de todos os países?” Ele acrescenta ainda que os grandes espíritos que já se comunicaram conosco através a variedade de literatura: (...) “Puseram no livro o melhor da sua inteligência e do seu coração. Conduzem-nos pela mão através dos dédalos da História; guiam-nos para as altas regiões da Ciência, da Arte, da Literatura. Ao contato dessas obras que constituem os mais preciosos bens da Humanidade, compulsando esses arquivos sagrados, sentimo-nos engrandecer, sentimo-nos orgulhosos... A irradiação de seu pensamento estende-se sobre nossas almas, reaquece-as, exalta-as. Saibamos escolher bons livros e habituemo-nos a viver no meio deles” (...)  Pausemos para um momento reflexivo: Será que andamos demasiadamente ocupados para escolhermos uma boa leitura e nos beneficiarmos dela, e ainda criarmos meios e recursos para divulgarmos o conhecimento adquirido? Para ilustrar o questionamento, destaco o que dizem os especialistas modernos sobre adquirir o hábito de ler e estudar: há a necessidade de se escolher um ambiente adequado para ler, estudar; buscar conhecer sobre o autor da leitura; fazer reflexões sobre o que lê e ainda ter um planejamento das leituras e dos estudos. São estratégias que nos oferecem para um bom aproveitamento. Ao fazermos uma rápida pesquisa no dicionário, vamos encontrar a palavra estudo como: o processo em que uma pessoa se dedica em buscar informação útil sobre determinado assunto ou disciplina. Parece-nos que seja assim que realinhamos nossas ideias e nos mantemos em uma linha de pensamento, percebendo e sentindo a vida que se realiza no contato com as melhores ideias, a fim de   descobrirmos que potenciais detemos, e à serviço de que estão, pois esse pensar não se destina a ficar  guardado, mas é para ser ativado, desenvolvido diariamente. Marilena Chaui, filósofa, nossa contemporânea, defende a importância do estudo, porque o vê como ato que favorece a emancipação das criaturas e a formação de cidadãos críticos, que ao se desenvolverem reproduzem o conhecimento, intervindo na sociedade. Estudar é um processo que promove a criatividade, é político em sua essência, pois indivíduos que aprendem que ações, em sua comunidade são melhores para todos, não se coloca como um mero objeto para atender ao mercado de trabalho. Se o objetivo é nos tornamos ativos e críticos, como Chauí diz, capazes de pensar no todo, pergunto: por onde andam as nossas preocupações quando se trata de obtenção de conhecimento? Que tipos de leituras ocupam as nossas mentes no cotidiano? Será um exagero ter tanta preocupação, quanto as escolhas com a leitura que devemos eleger? Acredito que o hábito do estudo propicia que nossos potenciais se expandam e então emitamos sentimentos que são dádivas aos que conosco compartilham os caminhos. E assim promovemos muitas oportunidades de iluminar mentes sedentas de conhecer, para também se autorrealizarem. A nossa divulgação pode ser tocha, que clareia estradas! O tempo presente é feito de dias difíceis, vive-se às voltas com lutas que parecem intermináveis, mas a leitura, o estudo, a dedicação de alguma hora do nosso dia   podem favorecer boas ideias e ações para o bem comum. Quando os males vão passar, não sabemos, mas o bem há de prevalecer. Quando nos informamos, iluminamos as nossas trilhas e contagiamos os outros. Os espíritos luminares que a história nos lembra, deixaram legados, muitas vezes com ideias que trouxeram a revolução de pensamentos, modificando o que antes estava estabelecido e que já não atendia mais aos ideais das criaturas. Porque ao dialogarem com novos conhecimentos, duvidaram, raciocinaram, refletiram e buscaram compreender que novos caminhos podiam seguir e sugerir. Não duvidemos do esforço envidado por aqueles que se debruçaram a escrever suas obras ricas de reflexões e nos brindar com o prazer de ler, estudar, pensar e apreender. O nosso entendimento cada vez maior da realidade da vida se faz através do exercício de meditar sobre as questões para agirmos com sabedoria. É através do estudo contínuo que mantemos as nossas mentes dirigidas, que escapamos do desequilíbrio mental, onde as inquietações, inseguranças e ilusões não encontram guarida. O coração que busca a boa leitura, o perquirir permanente, cria recursos internos para manter-se firme diante das circunstâncias, com a mente direcionada para o bem-estar próprio, social e espiritual, desvendando o porquê da vida . E você tem dedicado alguns minutos a leitura?

  • O Evangelho basta na reunião mediúnica?

    Por Gabriel Lopes Garcia Eu gosto muito de conversar com os Espíritos no contexto das atividades espíritas. É um hábito que me educa para certas nuances da vida espiritual, do processo psicológico que acompanha a morte e seus desdobramentos. Além disso, em muitas ocasiões, a depender das condições em que se apresentem os comunicantes, podemos oferecer-lhes algum auxílio: esclarecer sobre a passagem, acalmar as aflições, reerguer os ânimos, interceder em obsessões etc. Não sou adepto da ideia de que a reunião mediúnica tem como principal finalidade ajudar Espíritos “sofredores” (quem de nós não o é?). Considero essa posição piegas e arrogante. Nada obstante, na variedade dos contatos, surgem aqueles a quem prestamos apoio, dentro dos limites que a mediunidade coloca para tal empreendimento. É natural que busquemos os melhores recursos para utilizar nessas ocasiões em favor dos que nos chegam precisando de suporte. Em uma das entrevistas que conduzi ao vivo pela internet sobre o tema reunião mediúnica, uma pessoa escreveu posteriormente um comentário que motiva esse texto. Ela se expressou assim: “O Evangelho basta para ajudar e esclarecer os Espíritos em reunião mediúnica? Pois na reunião em que trabalho como médium, acho que outras fontes de conhecimento humano seriam importantes também para aclarar a consciência dos desencarnados. Já que atendemos uma diversidade de irmãos. Nenhum é igual ao outro.” Eu acho a questão muito pertinente e a argumentação dela também. Concordo com o início de resposta que ela mesma propôs. Na sequência apresentarei meu raciocínio, desenvolvendo minha posição sobre o assunto, que entrego para seu exame. Estou convencido de que é importante uma reflexão dessa pergunta, pois o caminho escolhido poderá revelar uma postura aberta à pluralidade de indivíduos, crenças, ideias e procedimentos, ou fechada em uma bolha dogmática e pretensiosa. Religião, cultura e psiquismo Em primeiro plano, uso aqui a palavra Evangelho no sentido simbólico, quero dizer, como o conjunto de ensinos morais atribuídos a Jesus de Nazaré e registrados por outras pessoas. Acompanho o entendimento de Kardec e penso que toda a mensagem evangélica tem a prática do amor e da humildade como núcleo central. Isso é uma orientação que podemos (acredito que devemos) usar no trato com os Espíritos. Falar com gentileza, acolher e validar sentimentos, ouvir mais do que falar, conversar em pé de igualdade, auxiliar sem a pretensão de resolver os problemas. No sentido de práticas das virtudes evangélicas, penso que o Evangelho basta, pois oferece orientação segura para agir respeitosamente perante os Espíritos. Mas estendo o argumento para o fator cultural. Nós fazemos parte de uma sociedade cristã, somos criados imersos nessa mundividência. Para muitos comunicantes é a referência à Bíblia, o oferecimento de um Pai Nosso ou a figura de Nossa Senhora que lhes dá alívio e confiança no diálogo mediúnico. Para estes desencarnados, as referências ao Evangelho são poderosos auxiliares, têm efeito psicológico positivo. Mas, considerando o comentário citado acima, é evidente que nem todo Espírito vive segundo o cânone cristão. Logo, para estes, é necessário fazer uma abordagem que use recursos do seu sistema de crença. Pensemos em alguém do Candomblé, ou da Umbanda, ou muçulmano, ateu e por aí vai. Para estes, o Evangelho não basta, nesse sentido do conteúdo em si. Frente à diversidade e singularidade humanas, convém adaptarmos as abordagens de acordo com cada criatura, respeitando-lhe as preferências. É importante que o trabalhador da reunião mediúnica amplie seu repertório e se interesse pelas outras expressões de fé. Cada Espírito merece um diálogo que atenda às suas necessidades afetivas e psíquicas. As outras tradições religiosas têm conceitos e práticas valiosos que podemos aprender e utilizar no intercâmbio mediúnico. Morto é gente como a gente Ademais, penso que, para além de considerar a diversidade religiosa, os conhecimentos de psicologia são muito úteis nos diálogos com os Espíritos. Digo assim de forma genérica pois a maioria de nós que trabalha na reunião mediúnica não somos psicólogos de formação profissional. Não defendo que devamos nos atrever a agir como se fôssemos, não é isso. Entendo que informações básicas sobre emoções, motivação e relacionamentos humanos ajudam a “calibrar” abordagens de acordo com o perfil do comunicante. Reunião mediúnica não é consultório de psicologia, embora tenha efeitos terapêuticos para os participantes de ambos os planos da vida. Nesse aspecto, observo que podemos aprimorar o que chamo de “tato psicológico”, uma maneira compassiva de receber e de conversar com os Espíritos. E conjugar a isso a assertividade, um modo franco, polido e natural de conversar com qualquer comunicante. Repare que esse conjunto de ferramentas informacionais e relacionais está além da mera citação ao Evangelho, que claramente não basta para todas as situações. Finalmente, defendo que, para auxiliar os Espíritos no contexto da reunião mediúnica espírita, é fundamental estudar o Espiritismo. São os conceitos doutrinários bem compreendidos que permitem compreender o que se passa com o Espírito. Estou me referindo a: perispírito, natureza fluídica do mundo espiritual, desligamento dos laços entre corpo e perispírito, sensações e percepções dos Espíritos, como acontece o processo mediúnico, obsessão, reencarnação, famílias espirituais etc. Os conhecimentos espíritas são muito importantes para entender a situação do Espírito comunicante, a dinâmica do mundo espiritual, os aspectos psicológicos da fase de adaptação pós morte, dos apegos ao mundo material e os sofrimentos decorrentes do estilo de morte. Tudo isso vai além de aplicar o Evangelho , são informações técnicas produzidas no contato mediúnico e pela teoria espírita. São ferramentas sem as quais o auxílio fica bastante restrito e precarizado, quando não inviabilizado pela ignorância e pelo medo. Em todo caso, penso que as abordagens devem ter ênfase no cuidado e no conhecimento. Conversar com humildade, usando linguajar e ideias acessíveis ao Espírito necessitado de nossa ajuda. Este auxílio é educativo, pois nos ensina que estender a mão é dever de fraternidade. Nessa tarefa, o Evangelho poderá ser suficiente no escopo de conduta moral dos tarefeiros, mas não o é para a variedade cultural dos comunicantes e nem possui as informações de natureza mediúnica e espiritual que são necessárias para compreender e intervir eficazmente no quadro apresentado.

  • Anemia moral

    Por Magdala Monteiro O valor do pensar e da capacidade que todo ser humano tem de criar, ampliar e fazer a manutenção das ideias, direcionando-as, é o que o encaminhará ao próprio crescimento, capacitando-o a fazer refletir ao redor a sua experiência. Afinal, é mesmo uma tarefa grandiosa e de muita responsabilidade para aquele que se detém na atividade de divulgar ideias, e ao mesmo tempo promover o conhecer nos outros, estimulando as mentes. “ O Pensamento é criador. Assim como o pensamento eterno projeta, ininterruptamente, no Espaço, os germens dos seres e dos mundos...  ” 1 A anotação acima é para ensaiar nossas primeiras meditações sobre um capítulo que trata do tema “O Pensamento”, em uma das obras do nosso querido Apóstolo do Espiritismo, Léon Denis.   Vive-se hoje, momentos de aceleração do pensamento, de atividades múltiplas, que geram o transtorno da ansiedade, e alguns desgastes mentais, ainda sem identificação muitos dos problemas nesse campo acarretam cuidados com a saúde mental de forma recorrente e absolutamente cada vez mais necessários. Talvez nunca se tenha dado tanta importância a manutenção da mente alerta e direcionada, como atualmente. Sendo assim, creio eu, que estudar sobre o pensamento, entender como se processa  a vida em nossas mentes e nas mentes de outros, é de capital importância. O mestre de Tours anotou: “ O que há de nobre e elevado, no domínio da inteligência, emana de uma causa eterna, viva e pensante. Quanto maior é a impulsão do pensamento em direção a esta causa, mais alto ele paira, mais radiosas são, também, as claridades entrevistas, mais inebriantes as alegrias sentidas, mais poderosas as forças adquiridas, mais geniais as inspirações.” 2 O espírito se eleva à medida que cuida do seu desenvolvimento, vivenciando e experimentando a vida, mas é no aprendizado que emerge de seu mais profundo ser e ao respeito da sua condição ora, de humanidade, que percebe suas potências, residentes no íntimo, para que venham a desabrochar. Inúmeros caminhos são percorridos pelas almas, muitas vezes densos, doloridos, que possibilitam as meditações sobre a vida dura e ações firmes surgem, envolvendo-as em uma atmosfera própria, e cria um crescer e um florescer possíveis. Acredito que haja uma grande reflexão a ser feita, nas entrelinhas do capítulo citado acima, cuja convocação nos é sugerida, para que: ergamos os olhos, agucemos os ouvidos aos rumores do mundo invisível e através de uma conversa conosco mesmo, elevada para esse tal mundo, identifiquemos o quanto de apoio recebemos, ao longo dos dias, pois que uma vez inspirados, criamos, sempre e mais, através o trabalho que desenvolvemos na vida, tendo nossa inteligência estimulada. A alma mergulhada na inspiração e amorosidade da fonte inesgotável de todo amor, torna-se mais bela e criativa, e constrói no cotidiano as relações que se revelam em seu íntimo. E nessa movimentação de ideias que surgem, ela toma conhecimento de si. Pode a filosofia espírita ensinar o ser, através o estímulo, ao uso da bondade, a ser solidária, mesmo cansada das horas duras da vida, aprender a usar de coragem moral, para conquistar virtudes . A virtude, tema recorrente desde as relações do mundo antigo, tanto quanto na hora presente, é tão procurada, mas não plenamente compreendida e alcançada pelas criaturas, mesmo por aquelas que se denominam “éticas”, que num esforço extremo buscam conquistar. “Em um sentido ético, a virtude é uma qualidade positiva do indivíduo que faz com que este aja de forma a fazer o *bem para si e para os outros. Platão considerava a virtude como inata, como uma qualidade que o indivíduo traz consigo e que, portanto, não pode ser ensinada. Contrariamente a Platão, Aristóteles considerava que a virtude podia ser adquirida, sendo na realidade resultado de um hábito. Oposto a vício. E na filosofia moderna, a palavra passou a designar a força da alma ou do caráter. Nesse sentido moral, designa uma disposição moral para o bem. Kant defendeu a virtude como a força de resolução que o homem revela na realização do seu dever. As virtudes designam formas particulares dessa disposição para o bem: a coragem. a justiça, a lealdade.”  3   Independente das inúmeras elucubrações dos filósofos que antecederam as ideias que a Filosofia Espírita   nos traz, vejamos o que diz Denis:   “Aprendei a abrir, a folhear e a ler o livro oculto em vós, o livro das metamorfoses do ser. Ele vos dirá o que fostes e o que sereis. Ensinar-vos-á o maior dos mistérios, a criação do eu , pelo esforço constante, pela ação soberana que, no pensamento silencioso, faz germinar a obra e, segundo vossas aptidões, vosso tipo de talento, far-vos-á pintar as mais belas telas, esculpir as formas mais ideais, compor as sinfonias mais harmoniosas, escrever as mais belas páginas, criar os mais belos poemas.” 4 A renovação da humanidade tão proclamada como se fosse uma salvação, algo doado, um milagre divino que se opere nas mentes, não é real. Inclusive no campo do espiritismo, infelizmente ainda vemos mentes envolvidas com a ideia de que recebem benesses, porque são  merecedoras por tudo suportar sem reclamar.  O ser humano precisa focar no mais interno de si, descobrir-se, verificar o seu potencial, e avançar rumo a sua própria consciência, construindo hoje, o que vislumbrará em seu futuro. Das sombras o ser vai se afastando, vai se desfazendo de preconceitos, de temores, e deslumbra harmonias outras, que vibram no universo, para encontrar novos caminhos. Ainda raciocinando com o conteúdo em estudo, identificamos que tudo o que temos ao nosso redor é para o bom proveito de todos. Tudo nos f ala e vibra, o visível e o invisível. Portanto vivamos, celebrando a vitória de estarmos no tempo presente pensando, criando, percebendo a natureza como a maior ensinante. Sejamos bons aprendentes, pois só quem sabe ver, ouvir, pensar e agir porque tudo observa, insere-se no processo de auto-observação e agrega no interior e no exterior, iluminando caminhos. É urgente que aprendamos a transpor os muros, a sair de determinado cercadinho que nos ofereceram, usando a habilidade de pensar e refletir e nos tornarmos conscientes de que não somos sábios, só porque temos em mente meia dúzia de perguntas, mas devemos exercitar as nossas mentes. Segundo o estudo do pensamento proposto pelo mestre de Tours, estamos distante das produções intelectuais de terna beleza por causa de nosso distanciamento das coisas divinas, que deveriam ser vistas pelos olhos da alma e porque deixamos de crer e amar. Sendo o único remédio contra a Anemia moral  nos voltarmos para as fontes celestes e eternas que nos animam o ser. Invistamos em nossos potenciais e que a persistência pela busca do saber, compreendendo o nosso papel de ensinantes/aprendentes nos qualifique em nossa proposta de vida para atingirmos as metas desejadas. Que o pensar contínuo , conquistado após longas caminhadas quanto seres imortais,  seja o nosso exercício constante. Foquemos nas maravilhas da vida que germinam em nós, a fim de que a anemia moral não nos adoeça.   Referências: [1,2,4] DENIS, Léon. O Problema do Ser e do Destino. Edição 1ª. RJ. Editora CELD, 2011, páginas 386, 387, 391. [3] JAPIASSU, Hilton e MARCONDES Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Edição 2ª. RJ Jorge Zahar Editor, 1993, página 243.

  • Pessoas que agregam

    Por Magdala Monteiro A conquista da evolução moral do espírito, se faz no trânsito em um corpo de carne, cujo aprendizado é através a convivência de forma humanitária. Allan kardec nos faz refletir, através a Lei de sociedade que não é simplesmente convivendo que o ser aprende a ser ético e caridoso, mas quando se compromete moralmente com seus pares, para que se faça a construção de uma coletividade socialmente unida. Este artigo é para se pensar sobre o papel das pessoas que sabem agregar umas às outras, consolando, amparando, mas principalmente promovendo justiça social.  “Nenhum homem possui faculdades completas; através da união social, eles se completam uns aos outros, para assegurar seu bem-estar e progredir: é por isso que, necessitando uns dos outros, foram feitos para viver em sociedade e, não, isolados.” (questão 768)   Aprofundando o estudo do Espiritismo, em sua base identifica-se que o homem não evolui isoladamente, mas ele pode compreender que a vida em sociedade é um poderoso recurso para a progressão tão desejada. Assim sendo, ao se relacionar os seres se tornam melhores porque a vida age educativamente oferecendo oportunidades de relações humanas mais construtivas, seja no enfrentamento das lutas diárias, que promovem a conquista de virtudes como na ampliação da compreensão do que seja viver verdadeiramente o amor ao próximo. Pessoas que sabem agregar, são aquelas que percebem como aprofundar essas relações , apesar dos desafios, dos conflitos e dos ressentimentos, motivando-se com o compromisso de crescimento moral de que estão imbuídas para um viver diário mais solidário e fraterno. A renovação do espírito será garantida pela maturidade moral, difícil, mas não impossível de ser conquistada, partindo dos limites úteis às relações para não prejudicar o projeto de educação do ser. À propósito, se faz necessário promover um diálogo entre a filosofia espírita e a filosofia contemporânea. Diz a visão da ética do encontro, do pensador Emmanuel Lévinas que é filosofia centrada na face do outro, que nos chama à responsabilidade antes de qualquer escolha consciente. É um não a autossuficiência do Eu. Isso contribui para reforçar a dimensão ética do encontro humano, já que o outro pede acolhimento e vamos nos dedicar a atendê-lo. Em o espiritismo, essa ideia se converge para a questão não apenas material, mas também espiritual, quando nos responsabilizamos por certos seres que se ligam a nós. Sendo uma ética da alteridade, onde o outro chega primeiro do que nós mesmos, investimos no cuidado, desenvolvendo a caridade nas relações humanitárias. E esse encontro primordial convoca à responsabilidade sem reciprocidade, defendendo o vulnerável e instaurando a justiça.  Léon Denis reforça essa compreensão ao associar o progresso espiritual ao serviço desinteressado. Para ele, o espírito se eleva à medida que aprende a sair de si mesmo. Agregar, nesse sentido, é um exercício de descentralização do ego, no qual o bem do outro passa a ocupar lugar legítimo nas escolhas cotidianas. Esse fluxo natural da vida, usando a vontade, a maior potência da alma, exercitando a fraternidade, e a busca do sentido íntimo, como cita Denis através a fala de Victor Hugo, escrita no Post scriptum de ma vie :   “É dentro de nós que devemos olhar o exterior... Inclinando-nos sobre esse poço, o nosso espírito, avistamos, a uma distância de abismo, em estreito círculo, o mundo imenso.” (Cap. A Consciência. O sentido íntimo) É na convivência entre os seres humanos, que surgem os potenciais latentes, e explorá-los  sem pretextos e sem máscaras é o que importa para o desenvolvimento dos seres integrais, dedicados ao distanciamento das ações mesquinhas, grosseiras, pueris e banais. Platão, no livro A República, ao pontuar a questão, acentua que formamos o caráter, educando as pré-disposições com as quais nascemos, umas nos são mais agradáveis que outras, então a reeducação das menos agradáveis seria o recomendável para alcançar uma vida ética . O desafio do ser é manter a capacidade de encontrar em admirar mais em si mesmo o que lhe caracteriza quanto um ser humano: empático, gentil, atencioso, flexível. Seguindo esse raciocínio, o ser humano se aproxima da autorrealização, certo de seu dever consigo mesmo e garantir certa tranquilidade, conscientizando-se diante das  questões da vida. Célebre frase atribuída a Cícero, orador, político e filósofo romano, nascido na Itália em 106 a.C, nos demonstra a importância de se estar humano:   “Certifica-te que és fator de soma para as pessoas de cujas vidas participas” Isto significava para ele o não ter vivido em vão e a sua autorrealização garantida na alegria de viver, e na noção do seu dever a cumprir quanto homem público (deveres esses entendidos por ele como: ser caridoso, verdadeiro e honesto). Ao promover em si, contagiava as pessoas para serem fator de soma em suas próprias vidas. Para refletir um tanto mais no tema, verificamos a necessidade de sentir o contágio de tais ideias para que estejamos aptos a esperançar as criaturas, encorajá-las, e mantermos o ânimo a fim de que percebam os próprios potenciais. Importante memorizar sobre a importância de usar nossa capacidade de infundir nas criaturas que convivem conosco o amor latente, para que intuam o amor que há nelas, disponibilizando-se então a voos esplendidos. O desejo de ser feliz é para todos, sem exceção, e essa busca está nos caminhos trilhados  e construídos em conjunto, na autodescoberta de si para o aprendizado da solidariedade, da fraternidade, que abrem as portas largas da alegria de viver, de estar humano, de manter a serenidade, ao renunciar aos pensamentos mesquinhos, das ações torpes que usurpam a vontade de melhorar, e de criar recursos que favorecem o entorno. Viktor Frankl afirma que o sentido da vida pode emergir da responsabilidade assumida diante do sofrimento alheio. Essa ideia dialoga com a proposta espírita da resignação, mas ativa, que não estimula a passividade, mas o enfrentamento consciente das dificuldades. Agregar, nesse sentido, é consolar sem estimular a fuga, orientar sem ferir o livre-arbítrio, apoiar sem anular a experiência do outro,  promover o autodescobrimento de cada qual e capacitar o outro com os melhores recursos. O universo nos favorece todo o tempo, a natureza é nossa parceira, as tarefas do cotidiano é o maior ensinante que temos, e é partindo de tais observações que aprendemos mais, porque tudo ao nosso redor tem um teor pedagógico. Viver, trocando as lentes embaçadas para facilitar a melhor visão do entorno, alinhavando ideias, costurando novas emoções, e buscando a vestimenta ideal que será mais confortável para o caminho de evolução de todos os seres. É assim que o avanço chega, pois a consciência é de que o amparo é recíproco. Manter o desejo de crescer no agora, olhando cada detalhe, sem as paixões vis, mas com a paixão pelos objetos de estudo e de pesquisa que formatam a renovação social e as nossas referências modificadas. Saber o que realmente importa, assimilando o bem e o desejo de servir, doando o melhor que há em nós.   Referências: DENIS, Léon. O Problema do ser e do destino. 1.ed. Rio de Janeiro: CELD, 2011. FRANKL, Viktor. Em busca de sentido . Petrópolis: Vozes, 2008. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos . 1 a  ed. Rio de Janeiro: CELD, 2008 LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito . Lisboa: Edições 70, 1980. PLATÃO. A República. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

  • As 6 categorias para examinar a carta psicografada

    Gabriel Lopes Garcia Uma das tarefas da pesquisa espírita é examinar o conteúdo produzido via mediúnica. No trabalho de elaboração do Espiritismo, Kardec criou e usou alguns critérios de avaliação das comunicações obtidas. Ele expôs os seus métodos, por exemplo: em O Livro dos Médiuns  de modo difuso ao longo da obra; e no item II da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo . Dentro desse campo, a análise da identidade do Espírito comunicante no caso das cartas psicografadas é relevante, pois trata-se de decidir pela presença da pessoa específica que foi chamada. As nuances do intercâmbio mediúnico requisitam o aprimoramento das metodologias para a escrita e o exame dos ditados atribuídos aos falecidos. O “padrão ouro” nesse tipo de pesquisa é encontrar informações que só o Espírito e os familiares sabiam ou descobrir coisas (eventos, objetos guardados, parentes distantes etc) reveladas no texto. A semelhança de escrita e assinatura podem ser evidências, inclusive submetidas a análise de um perito em grafoscopia. Mas é um critério insuficiente pois o estilo pode ser copiado por um Espírito falsário, além das diferenças de grafia devido ao médium. É preciso analisar a linguagem, o pensamento dos Espíritos, bem como as circunstâncias da produção mediúnica. Kardec tinha tempo e recursos limitados para o empreendimento, então ele fez o que era possível em sua época. Atualmente as pesquisas científicas têm novos métodos para examinar elaboração e conteúdo das cartas psicografadas, embora mantendo o mesmo “padrão ouro” citado acima. Vamos dar um breve panorama dessa área promissora, que leva a pesquisa espírita a um patamar mais rigoroso e sistematizado. Informações prévias limitadas e ambiente controlado Embora possamos manter a prática mediúnica espontânea em nossas reuniões regulares, no caso das pesquisas sobre cartas psicografadas é preciso fazer algumas adaptações. Isso nem sempre é uma situação confortável para o médium, mas é importante para o rigor metodológico. Os mecanismos de controle são importantes, pois a internet dá acesso a informações de todos os tipos sobre as pessoas, mesmo que elas não saibam ou não as tenham compartilhado. Devido a isso, e ao método científico, nas pesquisas recentes algumas prevenções são tomadas. Antes da redação da carta, o procedimento incluiu uma breve entrevista de poucos segundos entre o/a médium e os solicitantes de mensagem da pessoa falecida, a quem a autoria da carta pode ser atribuída. Os requerentes também preenchem uma ficha com dados básicos do(a) finado(a), como nome, idade, causa e data da morte. A sessão mediúnica é filmada, e o/a médium escreve a carta sem interação com os solicitantes durante o transe. É uma estratégia para limitar o acesso do(a) médium a muitas informações sobre o Espírito e os encarnados que lhe pedem a mensagem. Esse é um problema que acontece em muitos ambientes espíritas que transformaram a psicografia em palco para celebridades, com muita mídia e nenhum rigor doutrinário-metodológico. Com o registro audiovisual é possível aumentar o controle da atividade mediúnica, eliminando outros fatores de dúvida, como consultas na internet ou o recebimento de informações por auxiliares. Psicografando às claras também se elimina qualquer desconfiança de pegar material preparado por terceiros. Exame conjunto e categorizado No caso de haver de fato psicografia de carta(s), estas são avaliadas pelos pesquisadores em entrevistas com os solicitantes, na ausência do(a) médium. O conteúdo do texto é destrinchado e cada afirmação é classificada em seis categorias. Isso é importante para refinar a análise, pois as instruções de Kardec eram mais genéricas. Seguem as categorias propostas mais comuns das pesquisas científicas. 1ª) Informação não avaliável : são as saudações ou expressões vagas. Em alguns casos, no entanto, o modo de saudar característico de uma pessoa pode ser evidência de identidade. 2ª) Não reconhecida : são os dados incorretos ou implausíveis. É importante marcar esse tópico para refutar em parte ou totalmente a identidade atribuída na carta psicografada. 3ª) Genérica : são conteúdos amplos que poderiam valer para muitas pessoas. Os picaretas da área usam este recurso com bastante frequência para pegar os incautos e os crédulos. 4ª) Divulgada : são as informações previamente informadas ao médium. Por isso o contato mínimo e o veto à internet. Esse problema se alastrou nas sessões de médiuns celebridades. 5ª) Dedutível : são as inferências possíveis a partir de dados já fornecidos. O médium pode fazer as conclusões de modo voluntário ou até mesmo inconscientemente. 6ª) Específica : são os detalhes reconhecidos pelos pais e improváveis de terem sido obtidos por meios convencionais. Este é o “padrão ouro” que estamos insistindo desde o inicio. As afirmações consideradas específicas descrevem hábitos e características pessoais do falecido que, segundo os solicitantes, não poderiam ser deduzidos ou conhecidos pelo médium. Nesse aspecto, embora tenha havido um avanço da pesquisa pioneira de Kardec, ainda assim a própria definição do que se considera específico pode ser subjetiva. Não negamos a subjetividade do cientista na escolha teórica e na execução metodológica, mas é importante ajustar os parâmetros porque senão a estrutura de análise pode ficar pouco compatível com o rigor exigido em um trabalho científico. Uma sugestão é dirigir perguntas objetivas, como “qual é o nome dos seus tios?” ou “qual é o nome do seu melhor amigo?”, com respostas previamente registradas. É um método adicional para avaliar a precisão das informações contidas na carta.

  • Lamennais

    por Rodrigo Farias Nascido numa família aristocrática em 1782, Felicité de La Mennais, muito influenciado pelo seu irmão Jean-Marie, buscou desde cedo a vida religiosa. Em 1809, os dois irmãos escreveram um livro a quatro mãos, Reflexões sobre o estado da Igreja na France durante o século 18 e sobre sua situação atual . Nele, Félicité, que era o principal redator, já mostrava um talento com as palavras que o marcaria pelo resto da vida. Já nesse primeiro livro, Felicité, argumentava pela independência da Igreja em relação às interferências do Estado. Quem nos acompanha desde o primeiro episódio vai reconhecer essa plataforma na França da época: é a do ultramontanos, que tomavam o partido do poder do papa, em contraposição aos galicanistas, que admitiam o direito do rei de influenciar em vários dos assuntos do clero, inclusive nomeando bispos. Para os irmãos La Mennais, esse era o caminho para curar as feridas que a Revolução Francesa deixara no país. Porém, eles também faziam uma proposta arrojada: o apoio ao regionalismo político, isto é, a revitalização de instituições locais, descentralizada, como meios de ajudar na difusão da mensagem cristã no país e se contrapor aos oponentes não católicos da Igreja. Tudo isso desagradou à polícia de Napoleão, que censurou a obra. Félicité não se deixou intimidar: cinco anos depois, lançou outro ataque ao Galicanismo, agora escrevendo sozinho. Deu sorte: quando o livro foi impresso, Napoleão tinha acabado de ser derrotado e mandado para o exílio. Começava a época da Restauração, e o trono foi para Luís XVIII, irmão de Luís XVI.             Para os ultramontanos, era a glória! Um rei católico voltava a governar a França. Félicité louvou o novo monarca e começou a se dedicar à obra que o tornaria famoso: o Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião , em quatro volumes escritos ao longo de anos. Desde o começo, o Ensaio  foi um sucesso absoluto, vendendo 40 mil exemplares em algumas semanas, um feito e tanto na época (aliás, até hoje). Félicité, agora sim conhecido como La Mennais, tornou-se uma estrela ascendente entre o clero francês. E por quê? Bem, primeiro pelas ideias: no livro, ele diz que a indiferença em questões religiosas não era uma atitude neutra, mas, pelo contrário, uma forma de ateísmo que fazia mal à sociedade . Não bastava dizer que a religião era útil porque ajudava a manter a ordem pública, como muitos pensavam, até ateus; a religião (leia-se: o Catolicismo) era uma revelação de Deus . E o argumento que ele apresentava era o do “senso comum”: a verdadeira religião seria aquela que apresentava o maior número de testemunhos a seu favor, não só no presente, mas ao longo da história. Isso significava, claro, o Catolicismo. E, para provar sua tese, La Mennais pesquisou várias outras religiões, inclusive as orientais, a fim de demonstrar, por A + B, a superioridade histórica do cristianismo católico.             La Mennais não era apenas brilhante, mas também era dotado de uma retórica muito afiada. Essas qualidades lhe renderam um círculo de discípulos, os “mennaisianos”, importantes na revitalização do Catolicismo francês. Quando foi recebido no Vaticano, em 1824, La Mennais já era um dos maiores nomes do clero do país e um ídolo para os padres mais jovens — o campeão dos ultramontanistas.             Mas a insistência da Coroa francesa no Galicanismo continuava, para desgosto de La Mennais e seus companheiros. Portanto, quando a Revolução de Julho de 1830 implantou a monarquia liberal de Luís Filipe de Orléans, La Mennais apoiou os revolucionários. Chegara à conclusão de que os conceitos do liberalismo podiam ser usados a favor da Igreja. Para defender essa causa, em 1831, ele e alguns dos seus seguidores mais próximos, como o talentoso Pe. Henri de Lacordaire, lançaram um jornal próprio, o L’Avenir (“O Futuro”). Nele, defendiam sem meias-palavras a separação entre Igreja e Estado, bem como outras propostas liberais, como a liberdade de consciência, de imprensa e de expressão. Acreditavam estar defendendo o melhor do Catolicismo e tornando-o palatável aos novos tempos — o que foi chamado de Catolicismo liberal .             Só havia um problema: a Igreja como um todo não era  liberal, muito pelo contrário. O papa da época, Gregório XVI, era um grande conservador e entendia que era do interesse da Igreja ajudar a “manter a ordem” na Europa e no mundo. Depois dos desastres da Revolução Francesa e de Napoleão, a prioridade católica era manter o máximo possível de seu poder e influência, tanto no campo espiritual quanto no político. Em outras palavras, nada de defender liberdades  — uma ideia perigosa — nem de renunciar ao apoio do Estado. Por séculos, a fórmula trono e altar  tinha funcionado muito bem para a Igreja, e o papado de Gregório XVI queria continuar com ela.             Quando o L’Avenir  foi atacado por clérigos conservadores, La Mennais resolveu suspender a publicação do jornal e submeter seus princípios à apreciação de Roma. Achava que o endosso do papa calaria a boca dos inimigos e faria da Igreja uma aliada do progresso político e social. Sua confiança era tanta que ignorou conselhos em contrário e foi pessoalmente a Roma pressionar por uma resposta rápida. Depois de um “chá de cadeira” de meses e de ter sido gentilmente mandado de volta para casa, a resposta oficial veio em agosto de 1832, na encíclica Mirari Vos .   Sem citar o nome de La Mennais, o papa condenou o pluralismo religioso e muito do que L’Avenir  defendia. Nosso herói ficou em choque.        Em respeito ao papa, La Mennais manteve o jornal fechado. Porém, em particular, não escondeu seu desagrado. O temperamento combativo, tanto quanto o intelecto, era um traço forte de Lamennais. Pediram-lhe que fizesse declarações de submissão incondicional ao papa e renunciasse explicitamente às ideias de L’Avenir. Recusou-se. A atitude fez com que perdesse quase todos os amigos católicos, inclusive o irmão. A ironia era óbvia: depois de anos lutando pela autoridade da Igreja, quando ela se voltou contra ele e suas ideias, Lamennais não quis aceitar. Em resposta, renunciou aos seus votos religiosos em 1833 e, em 1834, implodiu de vez sua relação com a Igreja ao lançar o livro Palavras de um homem de fé . Nessa obra, em linguagem poética e apocalíptica, La Mennais denuncia a exploração das massas por líderes políticos e religiosos (incluindo o papa). A resposta veio rápida: em 1835, o livro foi denunciado explicitamente em uma nova encíclica, Singulari Nos. Nela, o papa diz que o livro "Corrompe as pessoas por um perverso abuso da palavra de Deus, para dissolver os vínculos de toda ordem pública e enfraquecer toda autoridade [...] desperta, promove e fortalece sedições, tumultos e rebeliões nos impérios [e]  contém proposições falsas, caluniosas e precipitadas que levam à anarquia; que são contrárias à palavra de Deus; que são ímpias, escandalosas e errôneas; e que a Igreja já condenou."             Daí para frente, Lamennais nunca mais se disse católico. Mudou a grafia do seu sobrenome aristocrático, de la Mennais, para Lamennais (tudo junto), encobrindo sua raiz nobre. Mudou seu entusiasmo pela Igreja para a devoção ao povo como fonte de sabedoria e autoridade. Passou a falar de temas políticos e sociais, sempre do lado da oposição ao status quo  e defendendo um republicanismo tingido de socialismo cristão. Escreveu sobre os trabalhadores, a democracia, a escravidão e outras questões que fervilhavam nos debates da época. Em 1841, teve um livro censurado e chegou a ser preso por um ano, tempo que aproveitou para compor outro livro, Uma voz da prisão  (sem tradução em português). Nessa mesma década de 1840, voltou a escrever sobre temas religiosos. Elaborou uma filosofia deísta expressa em seu livro Esboço de uma filosofia.  Nela, apresentava um quadro do universo em que os planetas eram seres vivos, e todos os seres se interligavam como partes de um grande organismo, e tudo evoluía de forma racional e linear regido por um Deus imanente e essencialmente bom. As catástrofes que aconteciam eram pontuais, sem impacto duradouro. O mal era apenas uma ausência do bem, e crenças cristãs como o pecado original, as penas eternas e a divindade de Cristo não tinham lugar. Também publicou uma edição comentada dos Evangelhos e uma narrativa mítico-poética, Amschaspands et Darvands, inspirada por suas leituras sobre o Oriente. Nela, uma raça de extraterrestres semidivinos visita a Terra, observa a humanidade e deixa um relato de suas impressões no Oriente. Ali, concluem que a raça humana vive em estado de sujeição e sugerem a democracia como solução.  Por fim, quando veio a Revolução de 1848, que derrubou a monarquia e instituiu uma república democrática – com o sufrágio universal masculino – Lamennais elegeu-se deputado e escreveu uma proposta de Constituição, rejeitada pelo parlamento por ser tida como radical demais. Quando o presidente Luís Napoleão deu um golpe de estado em 1851 e instituiu uma ditadura, sob o nome de Napoleão III, Lamennais retirou-se da vida política. Isolado politicamente, dedicou-se apenas a seus estudos e fez uma tradução da Divina Comédia , de Dante Alighieri. Faleceu em 1854 e foi sepultado sem qualquer rito, por conta de seu conflito com a Igreja. Mas a sua carreira ainda não estava no fim. Poucos anos depois, Lamennais ressurge como um nome recorrente entre os colaboradores desencarnados de Allan Kardec. Nos seus textos, assuntos como a questão da caridade para com criminosos, a escravidão e o estado de certos espíritos culpados no mundo espiritual são tratados com verve e clareza. A luta por um mundo mais justo continuava, mesmo além do túmulo.

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