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  • Kardec sob o olhar da Modernidade

    por Claudia Nunes No cenário dos Espiritismos brasileiros, atualmente, há um debate: de um lado, as pessoas discutem a importância de alinhar os pensamentos filosóficos de Kardec com as ciências e os desafios do século XXI; de outro, há quem tenha receio de acabar “desnaturalizando” o ensino do Espiritismo. Espiritismo se sustenta em três pilares: ciência, filosofia e religião, e para o século XXI dimensionamos o aspecto pedagógico. Neste artigo, vamos dar ênfase à filosofia, entendendo o contexto em que Kardec viveu e o impacto de suas ideias em nossos tempos. Ao analisar a própria obra de Kardec, fica claro que ele tinha uma preocupação grande em estar alinhado com as ciências da época. Isso fica evidente por meio de sua metodologia de pesquisa em torno do fenômeno mediúnico, na construção de sua obra. Podemos compreender a filosofia, de forma geral e prática, como o estudo das questões relacionadas ao ser humano e ao mundo que o cerca, envolvendo temas como ética, moral, linguagem, existência, verdade e conhecimento. O século XIX foi caracterizado por debates intensos no campo do conhecimento (episteme), da sociedade e do papel da razão. Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido como Kardec, viveu esse período em que diversas correntes filosóficas estavam em destaque, analisando o ser humano de diferentes maneiras. Algumas dessas correntes colocavam o próprio homem como centro, deixando Deus de lado como o fator inicial, e marcando assim a transição para a Idade Moderna. Moderno entendido aqui como termo que, de acordo com o historiador alemão Hans Ulrich Gumbrecht (1948-), significa a experiência histórico-cultural da modernidade utilizada desde a Antiguidade para designar um tempo presente, que se entende como diferente do passado. Essa mudança trouxe novos pensamentos, questionamentos e influenciou o desenvolvimento da ciência na época. Como pesquisador, Kardec escreveu levando em consideração tudo o que acontecia ao seu redor e utilizou esses conhecimentos para criar a Doutrina Espírita, usando os métodos disponíveis na sua época. Kardec desenvolveu sua obra alinhada ao que ficou conhecido como positivismo, uma corrente filosófica formulada no século XIX por Auguste Comte (1798-1857). O pensamento positivista defende a ideia de uma evolução contínua e progressiva, na qual a humanidade tende a avançar constantemente. Essa visão, aliada ao ideal iluminista de progresso, considera que a ciência e a tecnologia podem promover o bem-estar social, tornando a sociedade mais justa por meio da racionalidade, refletindo a concepção do Homo sapiens, como o “penso, logo existo” (pensamento racional cartesiano). No entanto, mesmo com esse avanço intelectual, os séculos seguintes não trouxeram necessariamente uma melhoria na qualidade de vida das pessoas. No cenário histórico em que se inseria, a filosofia dedicava-se às problemáticas sociais em transformação, gerando novas questões sociais, estilos de vida, mudanças nos sistemas políticos e nas formas de convivência. No século XIX, o iluminista Marie Jean Antoine Nicolas de Cáritat, o Marquês de Condorcet (1743-1794), testemunhou com precisão esse sentimento moderno de ruptura, e escreve: “Vivemos uma era única na história humana, uma era de progresso, de avanço, de império da razão. As nossas esperanças quanto à condição futura da espécie humana podem se reduzir a estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações; os progressos da igualdade num mesmo povo; e, finalmente, o aperfeiçoamento real do homem” (Condorcet, 1995, p. 12). Em outra perspectiva, e de uma maneira hipotética, se colocássemos um homem de Jerusalém da época de Jesus em uma máquina do tempo, e transportássemos esse indivíduo para um período em que os otomanos governavam a cidade (1800), ou ainda para outra época do século XIX, ele teria imensas dificuldades em se adaptar ao estilo de viver contemporâneo. O avanço tecnológico de nosso período o deixaria perplexo e essa adaptação dificilmente ocorreria sem prejuízo a ele mesmo. Assim estruturado, podemos compreender a necessidade de se abrir novos debates à luz do espiritismo, correndo o risco de não atender ao próprio pensamento de Allan Kardec: “O Espiritismo marcha sobre o mesmo terreno que a ciência, até os limites da matéria tangível”. (Revista Espírita, março de 1868). Kardec sempre busca um diálogo com questões psicológicas, filosóficas, pedagógicas, antropológicas, evolucionistas e de muitas outras áreas, interseccionando inegavelmente o diálogo entre espiritismo e ciência. Muitas questões ainda não haviam sequer surgido, ou ainda não tinham esse destaque que temos atualmente, como o racismo estrutural, as questões de gênero, da estrutura de família moderna, as questões ambientais, de tecnologia, entre tantas outras que despontam no dia a dia da modernidade e que acompanham o homem encarnado no planeta. Como espíritas, temos a responsabilidade, até mesmo ética, de discutirmos esses problemas, principalmente os de cunho social, justificado pelas Leis Morais, de O Livro dos Espíritos, na parte terceira. O fato de a doutrina espírita sintonizar com uma fé raciocinada nos coloca dentro do debate com todas as questões pertinentes ao progresso da humanidade, que só poderão ocorrer por intermédio de uma nova visão acerca da sociedade, que seja mais justa para os indivíduos. Para essa efetivação, é essencial a dialética entre fé e razão, com viés de complementaridade, deixando evidente essa tomada de consciência com base na afirmativa: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade”. Referências bibliográficas CONDORCET, Antoine-Nicolas. O progresso do espírito humano. In: GARDNER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. GALOR, Oded. A jornada da Humanidade: as origens da riqueza e da desigualdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023. GUMBRECHT, Hans. Modernização dos sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Disponível em: https://kardecpedia. com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espíritos. Acesso em: 26 out. 2025. KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos 1868. Brasília: FEB, 2019. PORFÍRIO, Francisco. Positivismo. Brasil Escola. Disponível em: https://brasi lescola.uol.com.br/sociologia/positivismo.htm. Acesso em: 20 out. 2025. SIGNATES, Luiz. A filosofia espírita da fé raciocinada. Espiritismo com Kardec, 2 set. 2021. Disponível em: https:// www.comkardec.net.br/a-filosofia--espirita-da-fe-raciocinada-por-luiz-signates/. Acesso em: 23 out. 2025. Indicações de leituras complementares: JÚNIOR, Alexandre (org). Teoria Social Espírita: fundamentos da igualdade e justiça. Limeira. SP: O Espírito Político/Editora do Conhecimento, 2025. LAURINDO, Ana Claudia. (R)evolução política dos espíritos. Maceió: Editora CBA, 2024

  • Em pauta: uma mulher especial

    por Magdala Monteiro Mês de maio, escrevo para homenagear uma mulher histórica e especial, Joana D’ Arc, padroeira das terras francesas, a quem esse mês é consagrado. Identificada em obras espíritas de Léon Denis, por Sorella, apresentando-se como um de seus espíritos guias. “Nascida como humilde camponesa, sem qualquer tipo de instrução, mas portadora de extraordinários dons mediúnicos, Joana obtinha com frequência as visões do Além e a audição de vozes, as quais a guiaram e sustentaram na grande missão que desempenhou, libertando sua pátria do domínio inglês, além de pacificá-la e uni-la.” “Os fatos mediúnicos que cercaram Joana – e que o Espiritismo explica –, como suas visões, premonições, audição de vozes, são analisados como fenômenos mediúnicos que a ignorância e a mentira tentaram desvirtuar.” Uma menina-mulher que nos autos de seus 17 anos vai liderar um exército, e que de forma estratégica, firme, determinada, faz cumprir suas ações diante de líderes militares, reis, sem se curvar a nada e a ninguém, simplesmente seguindo as ordens de suas vozes, seus guias, servindo ao “seu Senhor”, como a enviada de Deus, assim dizia. Mesmo sentindo medo, ela enfrenta as batalhas de uma guerra que se arrastava por anos, devastando a sua França querida. Segue os planos delineados com apoio espiritual, usando de suas estratégias militares, sem titubear para salvar o rei, e defender a pátria. Curiosamente, em 2024 tive acesso a um livro, publicado pela socióloga e escritora baiana, Isabelle Anchieta, chamado ‘Revolucionárias’, onde a vida, comportamento e toda a história que se tem registrada de Joana é muito bem pesquisada e analisada pela professora. Trata-se de uma obra sobre revolta, liberdade social e a luta apaixonada de ser o que se é, bem o retrato de Joana, que é citada por seus feitos e vida. Nessa obra, a estudiosa examina-a como uma personagem complexa, audaciosa e astuta, e traça o seu perfil como: o de uma mulher protagonista da modernidade, que em certa medida rearranja toda a sociedade com a sua mudança de posição no jogo social. Segundo a socióloga, apesar de muito ter sido falado e diversos pensadores terem escrito sobre Joana, ora com ufanismo, ora com sarcasmo, e com muitas deformações de seu caráter, ela pesquisa a vida de Joana como uma fonte de atração. Apesar do sólido, rico e diverso material colhido sobre Joana nos dias de hoje, como pesquisadora, a socióloga identifica que ela foi e ainda é a mulher mais bem documentada da Idade Média. E por suas múltiplas facetas, ela é a razão do fascínio que provoca até hoje. Diz a professora em sua obra, Revolucionárias: “Pois o que é a mulher senão a síntese das mais intrigantes contradições humanas?” Em Léon Denis, livre pensador espírita encontramos a dedicação a Joana, muitos dos seus pensamentos e estudos em artigos e preleções, e ainda uma obra: ‘Joana D’Arc médium’, onde temos a oportunidade de beber na fonte das ideias e dos ensinos advindos desse espírito valoroso, que encarnado quanto mulher, foi capaz de sacudir toda a poeira do egoísmo e da vaidade de uma época sombria e demonstrar uma fé inabalável na vida presente e para o além dela (verdadeiro ensino de fé humana e divina reunidos em uma pessoa). No livro, O Apóstolo do Espiritismo, Gaston Luce, biógrafo de Léon Denis, registra no capítulo “A verdade sobre Joana D’arc” o empenho dele desde a juventude, pelo estudo e meditação sobre o mistério da vida e morte de Joana, a heroína nacional francesa. Alcançando a maturidade, Denis resolve depois de tantas conferências e teses acerca da vida e da mediunidade de Joana, escrever um livro que refletisse o produto de seus pensamentos e pesquisas e uma contribuição nova desse grande tema. Diz Gaston: “ Ao afirmar que toda a epopeia de Joana se baseia nessa faculdade ainda mal definida, Léon Denis tentou uma obra certamente audaciosa, mas de forma alguma anticientífica. A novidade desse método era de ordem psicológica. Somente os conhecimentos psíquicos aprofundados possibilitam encontrar o "fio condutor que orientará os historiadores, no meio dos episódios daquela incomparável existência. Eis porque os escritores, que se basearam exclusivamente nos documentos dos arquivos, nada compreenderam dos prodígios de uma tal vida.” “E é verdade que uns fizeram de Joana um santa, visionária, foi canonizada pela igreja e os anticlericais fizeram dela uma histérica. Em quem acreditar? Como preencher essa lacuna?” “A maior parte dos fenômenos dos passados afirmados em nome da fé, negados em nome da razão, podem, agora, receber umas explicações lógicas, científicas. Os fatos extraordinários que marcam a existência da Virgem de Orléans são dessa ordem. Somente seu estudo, tornado mais fácil pelo conhecimento de fenômenos idênticos, observados, classificados e registrados, em nossos dias, pode nos explicar a natureza e a intervenção de forças que atuavam nela, em seu derredor e que orientaram sua vida para um nobre fim.” Tal é a tese que o escritor espírita vai sustentar. De qual natureza são essas forças? Eis o primeiro ponto a estabelecer. O Espiritismo demonstrou, disse Denis: “Que laços poderosos unem a Humanidade terrena ao mundo invisível, que uma ação recíproca exerce nos dois sentidos, por seus efeitos, uma estreita solidariedade. É por uma incessante ação dos Espíritos sobre a Humanidade, combinada com os efeitos da lei superior de justiça, que se explicam o fato da História. O aparecimento, no meio das tempestades sociais, de seres especialmente dotados, de missionários encarnados para um objetivo previamente traçado, dá, igualmente a chave de fatos prodigiosos, incríveis, se, para julgá-los, nos limitamos em ver neles o lado puramente terrestre." Certa vez, um eminente professor universitário em 1912 publicou acerca a obra de Denis sobre Joana. Em um magistral artigo de alta crítica, publicado no "Lien", órgão dos "crentes livres", ele apreciava a obra com uma serena imparcialidade. "Os Orléans de 1429 - escrevia ele - viram em Joana uma santa enviada por Deus, um anjo salvador; os ingleses quiseram que ela fosse uma bruxa. Apesar de toda a nossa vaidade moderna, ficamos limitados a essas duas opiniões primitivas, um pouco modificados. Fazer da boa Lorena, robusta e valente, de juízo perfeitamente sadio, uma histérica é fora do mais elementar bom-senso. A explicação do escritor espírita é ainda a melhor que pode explicar "suas vozes". E quanto ao processo sofrido por Joana, o crítico afirmou que: “O julgamento iníquo do tribunal eclesiástico pesa igualmente sobre a Igreja, a coroa da Inglaterra e a coroa da França. Foi um belo processo da Inquisição, igual a tantos outros. E o mais odioso do processo não foi a fogueira e sim a abjuração arrancada de Joana pelo terror e mais tarde falsificada. O mais sublime da história da "Donzela" foi a retratação, foi a retomada de consciência, após um instante de fraqueza, foi a coragem com a qual ela exclama diante da fogueira: "A voz me disse que era uma traição abjurar. A verdade foi que Deus me enviou. O que eu fiz, está bem-feito. Aí está porque Joana nos deve ser tão cara: é que ela não admitia nenhum intermediário entre ela e Deus; certa de tê-lo consigo, enfrentou o mundo inteiro unido para a sua condenação." E o que a crítica não consegue narrar é o cuidado carinhoso que Denis tem em retratar física e moralmente essa heroína, nos lembra Gaston Luce, seu biógrafo; consultando tudo, não devendo nada a um historiador, percorrendo inclusive todo o ambiente por onde ela caminhou. Denis, filho da amada região da Lorena, se proporá a reviver etapa por etapa os passos dados por Joana, refazendo os caminhos, visitando a cabana onde nasceu, os móveis que utilizou, os lugares onde em êxtase ela ouvia suas vozes, a igreja que frequentava; ele desejou parar e meditar, orar, chorar em silêncio. Cada cantinho fazia a sua mente asserenar e o seu coração vibrar com aquelas lembranças, mantendo o espírito ligado às vozes misteriosas do Alto. Como conta Gaston Luce: Nesses passeios vespertinos, com essa efusão de alma que Denis tem a sua primeira comunicação e a descreve: "O ar tremia; tudo parecia iluminado em meu derredor; asas invisíveis vibravam no crepúsculo, uma melodia desconhecida descia dos espaços, embalando meus sentidos e fazendo jorrar minhas lágrimas." Sorella se comunica e lhe diz: “Tua alma se eleva e sente neste instante a proteção que Deus lança sobre ti. Comigo, que a tua coragem aumente, e, patriota sincera, ames e desejes ser útil a esta França tão querida, que, do Alto, como Protetora, como Mãe, contemplo sempre com felicidade.” “Não sentes em ti nascerem pensamentos de suave indulgência?”. “Cristã piedosa e sincera na Terra, sinto no Espaço os mesmos arroubos, o mesmo desejo de oração, mas quero minha memória livre e desprendida de todo cálculo; não dou meu coração, em lembrança, senão aos que em mim não veem mais do que a humilde e devota filha de Deus, amando a todos os que vivem nessa terra de França, aos quais procuro inspirar sentimentos de amor, de retidão e de energia.” Em um preito de gratidão elevo meus pensamentos a Sorella querida por intuir o valoroso pensador, cujas ideias nos apraz propagar e ainda porque nos encoraja seguir a passos resolutos. Se você se interessou em conhecer mais sobre essa mulher de ontem que está presente na mulher, que hoje se desenha em nosso ideal de ser, aquela que luta por um mundo melhor, e como escreve a socióloga acima citada, uma mulher que protagoniza, fazendo a sociedade mudar o seu pensar, fica aqui a sugestão de leitura da obra Joana D’arc médium e o livro Revolucionárias. Inspire-se em sua trajetória, como se inspirou o nosso estimado cidadão de Tours, Léon Denis, que viveu envolvido por suas vibrações e orientações, cumprindo o papel que lhe coube de dirimir dúvidas, instruir, divulgar o bem e consolar corações. Bibliografia: Denis, Léon - Joana D’Arc médium Luce, Gaston – Léon Denis -O Apóstolo do Espiritismo, sua vida, sua obra

  • A prática mediúnica e o desenvolvimento afetivo

    Gabriel Lopes Garcia O trabalho com a mediunidade pode ser um caminho de amadurecimento espiritual para aqueles que o exerçam com seriedade e responsabilidade. A convivência com os colegas de tarefa e o contato com os Espíritos comunicantes têm potencialidades educativas para o desenvolvimento de bons hábitos e a prática de virtudes. O grupo mediúnico precisa cultivar autênticos vínculos de amor entre seus integrantes e promover interações baseadas no respeito. A qualidade dos relacionamentos e a afinidade de propósitos é essencial para a construção e o cultivo de um ambiente interpessoal harmônico, que impacta poderosamente na capacidade espiritual da reunião. As relações humanas são complexas e desafiadoras. Um grupo mediúnico equilibrado e frutífero necessariamente se fundamenta na convivência fraternal de seus participantes. As sutilezas e demandas do trabalho com a mediunidade exigem um todo coeso, formado por pessoas que se gostam, se respeitam e buscam os mesmos objetivos na prática mediúnica. Perante tal contexto, reconhecendo-nos ainda imaturos no trato uns com os outros, precisamos fazer esforços para estabelecermos com os colegas relações amistosas que favoreçam a elevação espiritual do trabalho. Com esse desejo, mobilizamos recursos para melhorar a interação e, por conseguinte, nesse processo também nos transformamos em pessoas mais amadurecidas do ponto de vista psicológico. Para manter a harmonia do conjunto, vamos valorizando a habilidade da escuta atenta; aprendemos a discordar sem ferir a suscetibilidade alheia; percebemos quando alguém não está num bom dia e lhe damos espaço emocional. Recolhemos as experiências (alegres ou sofridas) do colega, congratulando ou consolando. Na tarefa mediúnica vamos formando uma família espiritual com base no respeito ao outro, no bem querer mútuo, no engajamento da colaboração coletiva. Este é um dos efeitos que não se sabe a princípio ao ingressar na prática da mediunidade. A busca pelo cultivo de bons relacionamentos interpessoais é um estímulo ao aprimoramento das habilidades sócio-afetivas da convivência. Por extensão, outro resultado deveras interessante, levamos esse aprendizado para as outras instâncias de nossas vidas. Por exemplo, conseguimos ser mais calmos em certas situações de tanto praticar com os colegas de trabalho mediúnico. Para os que participam de reuniões equilibradas, é óbvio constatar que a ambiência espiritual elevada facilita a disposição para compreender o próximo e suas limitações. Raramente encontramos outros lugares com essa característica. Assim é a existência moral em nosso planeta e não podemos fugir disso. Mas a frequência e o hábito desenvolvido no grupo mediúnico nos fortalece para os enfrentamentos que ocorrem normalmente em cada setor de nossas convivências. Além dos “vivos”, amadurecemos também no trato com os “mortos”. A variedade humana comparece em cada comunicação mediúnica, do pedófilo cínico à mãe que nunca desiste. Muitas vezes entabular diálogos com Espíritos que praticaram coisas horríveis, deploráveis. Outras tantas são cargas intensas de dor íntima, lamentos pungentes. Há os que perseguem, os vingadores, os perdidos e por aí vai. Às vezes, o relato do Espírito atinge valores importantes para nós ou nos lembra de alguma vivência semelhante. Essa é uma das belezas da reunião: humanizamos nosso olhar para o comportamento de vivos e mortos, compreendemos que no diálogo entre mundos (corporal e espiritual) são pessoas interagindo em diferentes planos existenciais. Espírito é gente como a gente. Ama, odeia, chora, sorri. Recolhe no além túmulo as consequências do que fez (e suas intenções). Amadurecemos ao perceber que em algum momento futuro seremos nós mesmos os Espíritos a se comunicar através de outros médiuns. Nesses diálogos, aprendemos a escutar mais do que falar; a selecionar argumentos e modos de dizer adequados a cada situação; a amar o comunicante independentemente de quem seja e do que estiver narrando. Nosso foco é ajudar, sem a pretensão de “resolver” os problemas que competem a cada um. Aprendemos a validar os sentimentos alheios, a entender os motivos das ações e a frear a ânsia de punir quem julgamos culpado. Cada Espírito encontra na própria consciência céu ou inferno particular. O benefício de conversar com os Espíritos é que habitualmente são mais sinceros e espontâneos sobre o que fazem, sentem, pensam e desejam. Perdem o verniz social típico dos encarnados. É somente a minha impressão, talvez você entenda de outro modo. Isso para mim é um estímulo para me observar intimamente de forma mais honesta. Aumenta minha flexibilidade para reconhecer e nomear estados íntimos, mesmo e principalmente os que considero desagradáveis, sombrios, constrangedores. Portanto, sob o aspecto da atenção e do aprimoramento das habilidades para cultivar bons relacionamentos interpessoais e ao desenvolvimento de empatia e compaixão, o trabalho mediúnico regular se apresenta como território fértil de ferramentas e oportunidades. Podemos amadurecer nessa tarefa, desde que sejamos humildes e dedicados.

  • Será que amadurecer é sossegar?

    por Débora Nogueira Não ter mais inquietações?  Passamos uma boa parte de nossas vidas buscando a segurança, a estabilidade financeira e vamos esquecendo do jovem que buscava como “construir um mundo melhor”. Para muitos espíritas o mundo de regeneração. Bonito não? Respira fundo e fale em voz alta: Regeneração. Mas o que é o mundo de Regeneração senão um mundo onde há o predomínio do bem, da justiça e do amor e as paixões inferiores diminuem. E de que forma estamos contribuindo para essa transformação? Estamos em um mundo de provas e expiações e como chegaremos a um mundo de regeneração?   Basta desejar a melhoria? Em A Gênese, cap XVIII, item 11, Kardec nos diz que: “Como já dissemos, a marcha progressiva da humanidade se realiza de duas maneiras: uma, gradual, lenta e imperceptível, se considerarmos as épocas consecutivas, que se traduzem por aperfeiçoamentos sucessivos nos costumes, nas leis e nos usos, melhoras que só se percebem com o passar do tempo, como as mudanças que as correntes d’água causam na superfície do globo; a outra pelos movimentos relativamente bruscos, rápidos, semelhantes aos de uma torrente que, rompendo seus diques, transpõe em alguns anos um espaço que levaria séculos para percorrer. É, então, um cataclismo moral que dissipa em alguns instantes as instituições do passado, sobrevindo uma nova ordem de coisas que se assenta pouco a pouco, à medida que a calma se restabelece e se torna definitiva.” Mas, quem fará tudo isso? Ainda em A Gênese:   “Devendo fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão, geralmente precoces, aliadas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de um certo (grifo nosso) grau de adiantamento anterior. Ela não será composta exclusivamente por espíritos eminentemente superiores, mas pelos que, já tendo progredido, estão predispostos a assimilar todas as ideias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração.” Então, estamos dispostos? Mas, como sempre tem um, mas, no caminho da vida vamos esquecendo, deixando de lado os sonhos, talvez pela  desesperança e os dias passam mais devagar, mas a vontade de um dia termos um mundo mais justo, pulsa. A dor chega, sabemos e como está no ESE cap. IX item 7 : “A dor é uma benção que Deus envia a seus eleitos.” Será que realmente entendemos a função dessa dor que chega, na luta do dia a dia, quando da sobrevivência financeira, que se faz necessária e aos poucos essa luta vai ficando sem cor, insossa, pálida e vai se esvaindo, e a gente não lembra mais do que fomos, dos sonhos, dos ideais e achamos que porque sofremos então está bom, seria sinal que evoluímos? Vamos nos acostumando com a rotina da casa espírita, do trabalho sem reflexão, da falta de estudo, do autoconhecimento. Se nos acomodarmos e nos conformarmos, nada se modificará, pois as mudanças partem de nós e não aparecem de forma mágica. Queremos um mundo melhor, todos querem, até os maiores inimigos da humanidade fizeram a mesma afirmação, mas nem todos trabalham para isso. Vamos nos fechando nas nossas vidas, nossas preocupações, atolados pela repetição do cotidiano. "Todo dia ela faz tudo sempre igual" e sem perceber ficamos de boca aberta "esperando a morte chegar", como diz a canção popular. A máquina do sistema que vivemos nos retira o brilho, branqueia os cabelos ou os faz cair e simplesmente jogamos fora a criança, o jovem e tudo o mais que existe em nós. Elegemos a dor como bandeira e cada vez que ela nos assalta a escolha é pela conformação. Em O livro dos Espíritos, a questão 258 temos que o espírito escolhe o gênero de provas que quer experimentar e é nisso que consiste o seu livre-arbítrio. Estamos cientes da escolha dessas provas, mas não está dito que é preciso se conformar com as dores. Afinal, “Deus dá a todos a liberdade da escolha, deixando-lhe toda a responsabilidade de seus atos e de suas consequências; nada entrava o seu futuro; o caminho do bem se lhe abre, assim como o do mal. Se ele sucumbe, porém, resta-lhe uma consolação: é que nem tudo acabou para ele e que Deus, em sua bondade, deixa-o livre para recomeçar o que foi mal feito.” Kardec o grande parceiro dos espíritos, que já no auge da sua maturidade se inquietou, aceitou o novo, investigou e graças  a sua tenacidade, eis que surge o Espiritismo, assim como uma grande estreia, que cria polêmica, conturbando corações, mas muito bem colocada para o momento em que surgiu. Quem quiser ler, refletir e entender as tais “Leis Naturais”, que constam em O Livro dos Espíritos (e olha que há muitos que se dizem espíritas, mas não as entende, nem como funcionam) verá o quanto Allan Kardec se debruçou na pesquisa para nos fazer refletir. Em a lei do Progresso, uma das leis naturais, através da pergunta 799 de O livro dos Espíritos Kardec anotou: De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso? “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz com que os homens compreendam onde se encontra o seu verdadeiro interesse. Não estando mais a vida futura velada pela dúvida, o homem compreende melhor que poderá assegurar o seu futuro através do presente. Destruindo os preconceitos de seitas, de castas e de cores, ele ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.” Aquele senhor lionês, um professor reconhecido por seu trabalho, lutou contra os preconceitos, o ceticismo, a intolerância, e nunca parou de investigar, escrever, tornar público, se colocar a exame. Esse é o exemplo que ele nos deixou. Vivemos em uma sociedade excludente, que pensar no coletivo pode nos levar a situações de violência, mas há que se continuar a luta, a pesquisa, a agir, pois o mundo espiritual nos direciona a sermos melhores aqui. E as inquietações, passam?  Ser inquieto é próprio de quem deseja ser melhor, logo... A luta sempre continua.  Encarnados e unidos, jamais seremos vencidos !!!

  • Estupro coletivo e camaradagem brutal

    Por Gabriel Lopes Garcia Semana passada veio a público mais um crime que é o retrato da sociedade brasileira — misógina —, que não tira as leis do papel e não se compromete com a metade de sua população — as mulheres. O caso é chocante pelo fato em si e pela leniência inicial do poder judiciário. No Rio de Janeiro, uma adolescente de 17 anos marcou um encontro com o ex-namorado. Ele levou quatro cúmplices para um estupro coletivo premeditado . Não agiram por impulso: foi organização, convite e conivência. Cinco homens contra uma garota diz muito mais sobre a nossa sociedade do que qualquer debate teórico.   Masculinidade violenta Assustam o crime e a naturalidade como foi executado. Um homem chama e os outros aceitam. Ninguém hesita, não denuncia nem impede : pelo contrário, participam. Como se fosse banal e o corpo da menina fosse um território disponível para a imposição sexual. Essa nova geração criada nas mídias sociais está contaminada pelo ódio às mulheres. Mas a misoginia não brota do nada: é ensinada, reforçada, compartilhada e financiada. Os jovens combinaram o estupro coletivo: não é “desvio” individual ou monstruosidade. Isso é resultado de uma cultura que normaliza, incentiva e lucra com a desumanização da mulher . Reconhecer e combater essa educação cultural machista é tarefa urgente de todos nós.   Legislação não basta Sempre que estes crimes bárbaros são noticiados, há um clamor por mais leis e punições mais severas. Concordo parcialmente, pois já temos boas leis. Precisamos executá-las de modo eficiente, porque é real a sensação de impunidade e de que está desprotegida . A morosidade do poder público e a revitimização também são reais. Essa situação não é por acaso, mas o reflexo de um projeto político. Por isso precisamos de políticas públicas sérias; de educação afetiva e sexual com ênfase no respeito e no consentimento ; de enfrentamento da misoginia no currículo das escolas; e de efetiva responsabilização. Não é suficiente apenas a prisão depois da tragédia, mas um sistemático trabalho de prevenção antes dela.   Machosfera Além das ações concretas acima elencadas, temos de lidar com o contexto de uma geração emocionalmente adoecida, formada no ambiente tóxico das redes sociais virtuais . Não podemos ignorar que a misoginia está impregnada em parcela expressiva da juventude que cresceu assistindo pornografia, participando de fóruns de ódio e sendo bombardeada por discursos masculinistas. Multiplicam-se lucrativos perfis de homens, com milhares de seguidores, ensinando a categorizar mulheres “de valor” e mulheres “sem valor”. Regulamentar essas empresas bilionárias ( Big techs ) é fundamental para o combater a misoginia, o estupro e o feminicídio. Os garotos aprendem na internet, desde a infância, as piores coisas machistas e violências de gênero como se fossem naturais e desejáveis.   Transformação cultural O estupro coletivo dessa adolescente escancara uma falha social e educacional profunda . Infelizmente, não é um fato isolado. É sintoma da misoginia. Se tratarmos esse crime como exceção, ou os perpetradores como “monstros”, continuaremos produzindo mais meninas vítimas traumatizadas (quando sobreviventes) e mais homens convencidos de que podem tudo.   Compete ao meio espírita tomar parte ativa nesse enfrentamento . Livros e palestras precisam urgentemente atualizar as abordagens sobre a sexualidade e a cultura do ódio contra a mulher. Há muito machismo disfarçado de doutrina. Precisamos educar crianças e adolescentes espíritas em um novo paradigma de gênero, ensinando-os a reconhecer e combater a misoginia. Artigo em parceria com Blog “Estudos de Cultura Espírita” ( https://medium.com/@cultespirita) de 08/03/2026

  • As raízes da misoginia no coração dos seres humanos

    por Magdala Monteiro É de estarrecer os momentos atribulados que estamos vivendo em sociedade, quando a mulher se tornou uma vítima diária do feminicídio. O Brasil registra um aumento significante quanto aos casos de feminicídio, já que em 2025 o registro é um recorde histórico, onde, em média, quatro mulheres foram assassinadas por dia, afastando-as do convívio familiar, do exercício profissional etc. O medo insiste em fazer companhia as mulheres, a atenção tem sido redobrada e nem as leis existentes e os constantes meios de combater os abusos de toda sorte os tem evitado, muito pelo contrário, parece mais uma epidemia. Vivemos em sociedade onde as mulheres que carregaram no ventre um ser por longos meses, os alimentaram e deram muitas vezes suas horas mais preciosas nos cuidados não são mais respeitadas. Nesse dia, as mulheres se organizam e saem às ruas para se manifestarem, através de diversos movimentos em defesa de suas vidas, fazendo a manutenção do que é constitutivamente um direito de todos os seres. A escritora do livro: Mulheres que correm com os lobos, Clarisse Pinkola  pontuou o seguinte: “Não se pode domar uma mulher que foi rasgada e se costurou sozinha. Uma mulher assim jamais voltará a caber em moldes impostos.” A alma feminina é feita de coragem e memória ancestral. E a autora ao dizer assim quer nos explicar que a mulher é alguém que passa por inúmeras dificuldades, enfrenta todos os dias por mudanças tanto internas quanto externas e luta obstinadamente com suas mazelas para criar os homens do futuro. Portanto, convoco a todos e todas que raciocinem a partir do pensamento de  uma grande mulher, pensadora contemporânea, Bell hooks que em sua obra “Tudo sobre o amor e novas perspectivas”, nos faz pensar sobre ter sido a mulher o grande alvo de opressões históricas, porque ela aprendeu a aceitar as expectativas que limitam sua liberdade emocional e social. O patriarcado moldou a identidade feminina para servir, agradar e cuidar dos outros, muitas vezes às custas da própria autonomia. “A socialização das mulheres vem no sentido de acreditar que seu valor está em servir afetivamente aos outros, impedindo que elas desenvolvam um senso saudável de amor-próprio. Se a cultura ensina mulheres a praticar um amor que é mais servidão do que reciprocidade, como ser feliz, como se perceber como alguém que tem valor? O patriarcado criou homens emocionalmente analfabetos e mulheres emocionalmente sobrecarregadas. A desigualdade está mantida, porque as mulheres “sabem amar”, mas não são amadas na mesma medida. As mulheres estão privadas de receber o amor verdadeiro, pois seu papel social é apenas oferecer cuidado. E se sua expectativa for o amor romântico quanto realização máxima de vida, as mulheres são estimuladas a aceitar quaisquer comportamentos em nome do amor. Tem que vir a resistência feminina que só através o amor-próprio que seu empoderamento se dá. A mulher precisa ser educada para perceber que não deve aceitar violência emocional, para reconhecer que merece reciprocidade, e redefinir o amor como algo que exige igualdade e ética. Bell Hooks diz que quando as mulheres praticam amor-próprio, elas rompem com a lógica patriarcal que as domestica emocionalmente. Eu não posso deixar passar a oportunidade de levar o pensamento espírita para essas reflexões, onde a conversa é sobre a misoginia, o feminicídio, o machismo, a desvalorização da mulher. E, portanto, se faz urgente que os centros espíritas abram suas rodas de conversa para a informação desde os pequenos sobre o machismo estrutural, para que todos possam compreender sua tarefa aqui nesse mundo adverso, valorizando as criaturas que estão ao seu redor. É preciso compreender a que viemos, qual a nossa proposta de vida.  Não basta repetir os conceitos espíritas e colocar num patamar inalcançável porque somos imperfeitos, mas demonstrar como é viver, cada qual com suas habilidades seguir, se aperfeiçoando e combatendo o mal ao nosso redor. Ilustrando o tema, no livro: No Invisível, capítulo 8, Léon Denis anotou sobre a trajetória histórica da mulher : “A benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original. O mito de Eva reforçou nas coletividades que a mulher é perigosa, pois está sempre de parceria com o mal, e que as vozes que a dirige são demoníacas. Durante longos séculos a mulher foi relegada para segundo plano, menosprezada, excluída (...) Por uma educação acanhada, pueril, supersticiosa, a subjugaram; suas mais belas aptidões foram comprimidas. A situação da mulher, na civilização, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem por si os usos e as leis; mil perigos a cercam; se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio – tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas. O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contacto, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece.” Apesar de Denis mostrar que naquela época nem leis protegia a mulher, hoje as leis são presentes, há as instituições e recursos que prometem atenção e cuidado, mas a mulher segue sobrecarregada e violentada, pois na prática isso tudo não tem atendido a demanda delas e continua crescente o índice de feminicídios. Infelizmente em qualquer meio, no lar, no trabalho, na casa religiosa, na escola e nas ruas... As mulheres têm que lutar, resistir, educar-se e educar os seus em todos os meios que esteja. Os eventos misóginos resistem em se apresentar, uma vez que a misoginia , conforme nos diz Contardo Calligaris, famoso psicanalista, se encontra enraizado nos corações dos seres humanos. A falta de amor e o entendimento real do que seja amar ainda é muito grande, para que a sociedade não falhe com seu papel cuidador e fortalecedor da mulher, seja no meio social, quanto na educação dos que se formam nos lares. Uma importante proposta faz Bell Hooks às mulheres, para que não abandonem o amor, mas reivindique-o em sua forma verdadeira, a fim de que a promoção da sua dignidade, autonomia e de seu crescimento, estejam garantidos. Porque ela afirma que o amor autêntico é revolucionário para as mulheres, pois desafia diretamente as estruturas que as subordinam . Entendamos o que diz Bell Hooks sobre o amor não ser apenas um ideal, mas uma prática nos lares que formarão criaturas, educadas longe do machismo, não mais socializadas quanto indignas de amor, aprendendo sobre seu próprio valor, sendo vistas e aceitas, ensinadas acerca do que é verdadeiramente amarmos uns aos outros. E assim todos poderão se comprometer consigo mesmo e com suas parcerias.     Sigamos, portanto, de mãos dadas não só as mulheres, mas os homens também, reconhecendo os valores e que o papel da mulher, é onde ela quiser e que cada qual que saiba desempenhar o seu papel em sociedade, homens e mulheres. Deixo uma sugestão: Leiam mulheres!!! Estude sobre suas vidas, se comprometam com a vida contemporânea e aproveite cada minuto do seu viver no crescimento de um mundo mais justo.

  • Chico Xavier me disse

    Gabriel Lopes Garcia O legado mediúnico de Francisco Cândido Xavier é disputado pelos espíritas interessados em abocanhar seu capital simbólico e explorar a imagem dele. É um negócio lucrativo divulgar supostos segredos do médium, atribuindo-se a exclusividade da informação. Os comerciantes da mediunidade descobriram esse filão no Espiritismo brasileiro. Desde quando estava encarnado que Chico era tratado como pessoa extraordinária e, informalmente, converteu-se em um santo dos espíritas. Os livros sobre sua vida e “lindos casos” estão mais para o gênero hagiografia do que para biografia. Após a sua morte, a idolatria continua e os mercadores mediúnicos exploram a figura do médium em várias frentes comerciais: turismo religioso em Uberaba, eventos dos “amigos” de Chico Xavier e, principalmente, publicação de vídeos e livros com revelações bombásticas. O artifício mais utilizado é contar um segredo que teria ouvido pessoalmente de Chico Xavier. Os impostores falam em nome do médium defunto, dizem que foram orientados a guardar a informação somente consigo e que teriam a permissão de revelar tudo após a morte dele. A palavra do autointitulado revelador basta e não é possível verificar a veracidade das afirmações, por mais esdrúxulas que sejam. Ou seja, pessoas que tiveram algum contato com Chico usam isso como escudo contra as críticas que porventura recebem. Os comerciantes xaverianos alegam ter tido conversas particulares com o médium, nas quais ele supostamente teria feito várias revelações espirituais. Os exploradores mais inescrupulosos inventam até supostos encontros com Chico no mundo espiritual. A estratégia é usar o contato pessoal como fator de autoridade da narrativa. Dessa convivência teriam obtido acesso exclusivo a certas informações. Assim tentam dar credibilidade ao golpe e, simultaneamente, partem para o ataque, rotulando de perseguição qualquer dúvida sobre a autenticidade do conteúdo que revelam. Campo espírita De acordo com a sociologia, a disputa está no centro da noção de campo. De modo abrangente, um campo é um espaço estruturado pela relação entre “agentes” (pessoas ou instituições) que têm um interesse em comum. No campo espírita, os agentes são cada centro, federativa ou instituição, assim como cada médium, palestrante ou dirigente. O que os une é a relação de disputa permanente entre eles. No campo espírita, as posições dominantes têm mais prestígio, número de adeptos e influência, por exemplo, para indicar qual é a interpretação correta do texto kardequiano, quais são os erros, as ortodoxias e as heresias doutrinárias e assim por diante. A distribuição de poderes dentro de um campo é desigual. No meio espírita, o ramo chiquista adquiriu condições simbólicas e materiais para ter mais influência para definir o que é doutrinariamente “correto”. A mediunidade é a maior fonte de autoridade no campo espírita brasileiro. Chico Xavier é a principal referência de prática e conteúdo mediúnicos. Logo, os agentes disputam o capital simbólico do médium mineiro, posto que a sua obra já ocupa uma posição dominante. A estratégia é apropriar-se de sua imagem e discurso para tentar ocupar as posições mais altas do campo espírita. Parte daqueles que conheceram Chico Xavier encarnado instrumentalizam a convivência com ele para dar o verniz de verdade sobre o que afirmam ter sido dito por ele. Nesse contexto, a tática “Chico Xavier me disse” é muito bem-sucedida, pois muitas pessoas são curiosas com a intimidade do médium mineiro, ávidas por novidades e revelações, crédulas em qualquer informação sobre ele. A curiosidade pela aproximação Ainda encarnado, Chico Xavier já era figura de destaque no meio espírita e até mesmo além dos círculos espíritas, principalmente por causa das aparições na TV Tupi e das concorridas sessões de psicografia de cartas. Ele se transformou no ícone máximo do Espiritismo brasileiro, referência de mediunidade. Foi se construindo gradualmente a idolatria de sua pessoa. Naturalmente, sua vida e sua obra despertavam interesse na população: sempre faziam sucesso reportagens em revistas, matérias na televisão e livros sobre o médium. O livro “Chico Xavier na intimidade”, de Ramiro Gama, é o exemplo perfeito disso. O título mostra o valor do conteúdo, pois anuncia uma proximidade desejada pelo público ao oferecer casos inéditos com relatos pessoais do médium. De acordo com a propaganda de uma editora dessa obra, o diferencial é que a maioria dos casos ocorridos com o médium foram obtidos de convivência estreita e particular com o autor. Repare que há um valor agregado às narrativas, que é justamente o fato de serem oriundas da convivência com Chico e, muitas delas, relatadas pelo próprio médium. Desde o século passado que essa deferência ocorre também em outros formatos, em particular nas palestras públicas. É muito comum que tais casos, e opiniões de Xavier, sejam lançados como argumentos doutrinários de autoridade, pois se a “maior antena psíquica” da história falou, então é certo, deve ser replicado e aceito. Portanto, o interesse e a valoração da vida íntima de Chico Xavier e de suas posições sobre assuntos espíritas e mediúnicos, é uma característica marcante da comunidade espírita que foi iniciada ainda quando ele estava encarnado, e prossegue atualmente conduzida pelos chiquistas. É neste cenário que agem os comerciantes xaverianos. Mas, há duas diferenças importantes de comportamento das pessoas do tempo passado para os picaretas contemporâneos: (1ª) O conteúdo dos livros publicados no século XX eram passíveis de verificação da veracidade das informações com o próprio médium, que sempre foi acessível a qualquer pessoa interessada em interagir com ele; (2ª) Os antigos autores não auferiram lucro com as publicações, pois os direitos autorais eram doados para instituições filantrópicas espíritas ou para as editoras espíritas que as publicaram.

  • Refletindo sobre ontem, hoje e amanhã

    Por Magdala Monteiro A rememoração dos dias passados e das últimas realizações não é tarefa fácil! Mas e se observarmos que durante essa atividade podem surgir ideias, que em princípio não nos ocorreriam? Dá o que pensar! A promoção do nosso olhar para o dia de hoje é bastante reflexiva, pois pede um pouco mais de atenção para os momentos iniciais de um novo ciclo, onde a avaliação de nossos comportamentos no cotidiano entra em cena. Se inicia a identificação do que realizamos ontem, que se reflete agora e quem sabe se reconstruirá amanhã. Reflitamos sobre uma determinada questão: e se não estivermos sozinhos nessa empreitada? Para quem está afeito aos estudos do campo espiritual, é sabedor que vivemos próximos de um mundo rico de imagens e experiências, onde ideias paralelamente se tornam reais, embora sejam mais claras para uns do que para outros. Mas quando se evoca a espiritualidade que envolve cada qual, independente de uma percepção ou conexão precisa, o amparo chega. Ilustrando a reflexão, Léon Denis nos informa na obra “O Mundo invisível e a guerra”: (,,,)“O Espiritismo tem por finalidade familiarizar-nos com esse mundo pouco conhecido, com essas aptidões da alma que, quando está purificada e se desprendeu dos ambientes grosseiros, pode reproduzir os ecos, as vozes e as harmonias dos mundos superiores, tornando-se fonte de inspiração, de socorro e de luz por onde o influxo exterior desce até nós para nos retemperar e nos robustecer... É, principalmente, reprimindo tudo o que venha do eu egoísta que facilitamos a penetração das influências superiores.(...) Você se sente capaz de ter um olhar apurado para essa questão? A verdade é que todos somos conduzidos por outros mais experientes, que nos antecederam e nos inspiram para que alcancemos novas conquistas. Em muitas situações da vida nos acomodamos, os planos se frustram, enquanto as mudanças se tornam raras ou não são tão bem administradas. Mas os esforços sempre são nossos, e a ajuda sempre vem, e se as percepções estão apuradas, obtém-se a melhor condução, até nas situações mais implicadas, que nos são sugeridas através recados de terceiros, pelos sonhos ou pelas intuições. De posse desse aparato, a sugestão é que o primeiro passo seja dirigido ao que idealizamos, que beneficiará tanto a nós mesmos, como terceiros, rumo à prosperidade. O apoio recebido durante os dias de nossas vidas por serem múltiplos, vindos de todos os lados, algumas vezes chegam a ser explícitos, outras vezes é preciso maior atenção. A vida moderna favorece que fiquemos envolvidos com inúmeras coisas, tudo ao mesmo tempo, mas muitas das vezes as criaturas se acomodam nas suas casas, com a sua tv, o joguinho no celular (comum entre crianças, jovens, mas também com adultos), esse último promovendo o distanciamento uns dos outros. Aliás um grande fator da vida moderna importante para a meditação de todos. Já reparam como o alerta para o tempo ser bem utilizado e o alerta para se enxergar o nosso bem-estar, é grande?         Existe um alerta antigo, conta mais de dois mil anos, que é o “vigiai” (a si mesmo, aos próprios atos), é um facilitador a direcionar o olhar para a realidade e manter-se sob controle de si, e se distanciar da fantasia desmesurada que o mundo moderno oferece, e que remete a aceitação de qualquer demanda, sem pensar, privilegiando a acomodação. Abandonar o comodismo é tarefa urgente , pois ele não permite o nosso crescimento e consequentemente sugere a falta do domínio de si mesmo, nos adoecendo. Se insistimos apenas no nosso “conforto” adquirimos doenças do corpo e da mente, que se refletirão futuramente. Os estudos da neurociência relatam que acomodar-se em busca de conforto excessivo não é um estilo de vida a se escolher, porque ao se tornar crônico muda o comportamento, induz o cérebro a promover “atrofia estrutural”, os sinais aparecem no corpo, desenvolvendo doenças. A inatividade fornece a esse cérebro que necessita da repetição, conexões neurais associadas à preguiça, desmotivando o corpo, que precisa de movimento. Esses estudos comprovam o quanto as questões mentais estão sendo comprometidas pelos distúrbios causados pelo próprio ser humano,  que desatento e confortavelmente instalado no seu sofá não permite a função da neuroplasticidade que molda o cérebro, à serviço do seu bem-estar. Conforme Carla Tieppo, neurocientista brasileira, autora do livro “Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender Neurociência” vai explorar entre outros temas que “o comodismo” é a inércia sináptica . O cérebro prefere o caminho conhecido porque ele é "barato". A plasticidade é a ferramenta que temos para vencer essa inércia, mas ela exige um investimento inicial de energia (vontade e repetição) que o cérebro, por instinto, tenta evitar.        Parar, pensar e agir são as melhores propostas na manutenção de um raciocínio iluminado, que enxerga os benefícios. Há pequenas estratégias para atingirmos as metas, o objetivo que delinearmos para os nossos dias. E este momento vivido, agora, é único para nós!!!!      Se o aprendizado de enxergar ao redor: ver as habilidades das pessoas, reconhecer que  atividades são necessárias, o que já foi obtido, o que não se pode ter hoje, entendendo a situação de cada qual, não nos fizer melhores, não haverá compreensão de que estamos no caminho escolhido, que seja de nos desvencilharmos das velhas mazelas, que muito pesam, mais na alma do que no corpo. Um grande motivo para sair da comodidade e atuar por melhores aspirações, por desejos que construam o bem comum é focar na própria meta. Mas não esqueçamos dos pequenos autocuidados, de construção diária de novos hábitos, estimulando a criatividade ao redor. Quando somos capazes de oferecer, é porque construímos internamente e então as questões dos outros nos fará multiplicadores de boas resoluções, que somem no entorno.      A conquista de um degrau a mais na escala evolutiva, não é a de ficar trabalhando exaustivamente, mas visualizar na vivência terrestre qual é a nossa parte, onde estamos, preenchendo o nosso mais íntimo da forma mais plena possível, onde o bem-estar é de todos, e o crescimento é coletivo. Um calendário acabou de ser observado, e agora estamos a observar um novo, prontinho, nos oferecendo oportunidades de reconstruir o que não ficou bem resolvido. No aguardo por novos dias, diferentes e melhores, sejamos cientes que milagrosamente não se modificarão. Apesar dos novos desejos e da divulgação ampla pela busca da felicidade seja o “ter” cada vez mais, que fique claro: apesar da oferta de fórmulas mirabolantes para tanto, a conquista só vem se pusermos em prática o nosso planejamento, de olho em todos os alertas já elencados. Não contemos com a boa sorte para angariar prosperidade. Algumas festas encerram-se com inúmeras comemorações, inclusive a de uma grande confraternização para que os novos dias sejam coroados de benefícios e esperanças. Mas as cidades permanecem ornamentadas, em contínua festa, todos se enfeitam, e o comércio permanece em busca de clientes que já gastaram o que tinham, oferecendo novas aquisições para obter um tanto mais, mantendo assim os grandes negócios... Imprescindível continuar na busca, pois teremos que resolver os nossos inúmeros problemas, e até solucionando alguns de outros, com ou sem festividades. As minhas últimas palavras não são de pessimismo, ou contra as festividades, mas reflexiva, porque problemas sempre teremos, e o aprendizado é que a partir deles nos movemos, em direção ao progresso. Onde a nossa maior preocupação? Com o que passou, com o que estamos vivenciando ou com o que virá a ser? O amanhã está próximo e as novas conjunturas também! A partir de agora, novas rotas estão sendo traçadas e a realização é grandiosa, certos de que o poder de modificar está em nossas mentes e mãos. Lembremos: a plasticidade é a ferramenta que temos para vencer a inércia sináptica. Para manter a plasticidade em alta, o cérebro precisa de desafio . A novidade é o combustível que força os neurônios a buscarem novas conexões. Dediquemo-nos a leitura, a observação, a reflexão e a meditação das coisas do mundo, pois assim a nossa atenção, a nossa memória e a nossa saúde estarão garantidas e estabeleceremos pequenas regras para que nossa conduta seja a melhor e aos poucos as coisas sejam modificadas. Sem esquecer que o socorro da espiritualidade é constante, é diário, aprendamos  a nos manter conectados, pois muitas vezes atrapalhados conosco mesmo, não percebemos o apoio incondicional dos nossos queridos. À propósito desse amparo trago a experiência de Alan Kardec, registrada em Obras Póstumas, no capítulo “Meu guia espiritual”, quando ele questiona: “- Dissestes que seríeis para mim um guia que me ajudaríeis e me protegeríeis; compreendo esta proteção e seu objetivo numa certa ordem de coisas, mas, poderíeis me dizer se esta proteção se estende também às coisas materiais da vida? Recebeu como resposta: - Nesse mundo, a vida material representa muito; não te ajudar a viver, seria não te amar.” A reflexão para viver o hoje, reconstruindo a partir do que foi ontem e vivermos um amanhã estruturado é básica: promover a construção do cotidiano, com proatividade e com fé no apoio que recebemos para a realização do bem-estar a nossa volta. Trabalhar pela evolução é saber do potencial interior e favorecer a outros a informação, o acolhimento e o amparo. As leis naturais nos impulsionam ao progresso, que estimula todos os seres humanos a utilizar a sua capacidade de pensar, raciocinar, criar e favorecer o crescimento a sua volta. Essa é a grande revolução a ser feita em nossas vidas. A noção da imortalidade nos dá a força e a coragem de ser e de realizar no entorno com alegria, renovando ideias, criando recursos, usando as habilidades à serviço do bem comum. Em nós há o grande fator motivador que é nossa capacidade criativa que impede a acomodação, e nos move por novos caminhos, aspirando, desejando a reconstrução de um mundo mais justo e solidário.             Feliz hoje!!

  • Sobre o óbvio: Posicionamento sobre os desdobramentos do caso de uma menina estuprada

    Quando as obviedades da religião que seguimos fazem com que o mais importante seja impor a minha verdade ao outro, algo está muito errado. O que deveria ser manancial de equilíbrio e paz se transforma em fonte de arrogância e sofrimento. Daí, os religiosos se tornam “semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” [1]. Além disso, Jesus veio e disse algo ainda mais óbvio: “Aqueles que me dizem: Senhor! Senhor! não entrarão todos no reino dos céus; entrará apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” [2], mostrando a hipocrisia de alguns. A menina de 10 anos começou a ser estuprada com 6 anos. Do próprio tio. Engravidou. Foi chamada de assassina por religiosos católicos e evangélicos. Espíritas, utilizando recortes dos livros de Allan Kardec, também acusam e atacam a menina de 10 anos que começou a ser estuprada com 6 anos. E foi colocada em segundo plano. Ou seja: o caso tratado deveria ser o estupro de uma criança, mas o transformaram para que a culpa, de forma óbvia, caia sobre a criança-mulher. Diante desses desdobramentos afirmamos que é urgente que os espíritas debatam violência doméstica, aborto, feminismo, direitos sociais e tanto outros temas, não com a cabeça de alguém do século XIX, mas realizando paralelos sociais atuais. Nas casas espíritas, em seus estudos, não deveriam existir "tabus". Mas por atavismo religioso – e a lei de reencarnação auxilia o entendimento desse fenômeno – dificulta as tentativas de diálogos francos, onde o objetivo seja o crescimento intelectual e a emancipação dos seres. Por essas dificuldades certos temas são abafados por um silêncio constrangedor, impedindo qualquer debate de ideias com capacidade de crescimento geral. Assim, ainda é preferível, em muitos núcleos espíritas, a falsa paz, que dá uma sensação de segurança, mas que não passa de estruturas fincadas em areia. Para os que estão sinceramente mais preocupados com o destino do bebê, ignorando toda a problemática da situação, indicamos a resposta dos espíritos, em O Livro dos Espíritos, onde fica claro que, em situações onde a gravidez gere riscos de morte para a mãe, “preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.” [3] Ora, ser mãe precocemente tem riscos de saúde, como: bebê com baixo peso, falta de ferro e anemia profunda, pressão alta. E ainda existe o risco e a dificuldade durante o parto, por se tratar de uma estrutura óssea infantil e ainda não desenvolvida completamente, impossibilitando a passagem do bebê no canal vaginal, tendo que apelar para uma cesárea de emergência [4]. Ainda, em adolescentes sem nenhum tipo de planejamento nem apoio familiar, a gravidez ocasiona diversos problemas na vida da gestante e perpetua um ciclo de pobreza e exclusão social difícil de ser quebrado. Adolescentes pobres têm cinco vezes mais risco de engravidar que as mais ricas. Com filhos, dificilmente elas conseguirão conciliar os estudos, entrar no mercado de trabalho e ter independência financeira [5]. Agora, imagine essas questões postas para uma menina de 10 anos. Dados do Ministério da Saúde (2018) [6], dizem que 42% das crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual são vítimas recorrentes; 72% das pessoas estupradas são menores e 18% têm até 5 anos. A cada dez crianças e adolescentes que são atendidos no serviço de saúde após sofrerem algum tipo de violência sexual, quatro já tinham sofrido esse tipo de agressão antes. Por fim, gostaríamos de ver um movimento espírita dando apoio material e espiritual para as mulheres e meninas que passam por essa situação; demonstrando empatia, sofrendo junto, ampliando o debate dentro das casas espíritas, nos grupos de estudos. Que Jesus possa auxiliar na superação das obviedades atuais e que todos nós percebamos, verdadeiramente, uma obviedade ainda mais óbvia: “Filhinhos, não amemos de palavras nem de boca, mas sim de atitudes e em verdade.” [7] [1] Mateus, 23: 27. [2] Mateus, 7: 21 a 23. [3] KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, q. 359, kardecpedia.com [4] https://www.trocandofraldas.com.br/gravidez-na-adolescencia-riscos-e-suas-consequencias/#:~:text=Principais%20Riscos,Press%C3%A3o%20alta . Acesso em 17 de agosto de 2020. [5] https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/adolescentes-que-engravidam-sofrem-maior-risco-de-problemas-fisicos-psicologicos-e-sociais/ . Acesso em 17 de agosto de 2020. [6] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/42-das-criancas-e-adolescentes-que-sofrem-abuso-sexual-sao-vitimas-recorrentes.shtml . Acesso em 17 de agosto de 2020. [7] João, 3:18.

  • Irradiações na reunião mediúnica

    Por Gabriel Lopes Garcia As comunicações dos Espíritos são a atividade principal da reunião mediúnica, mas não é a única que realizamos nestes encontros regulares. Uma outra prática bastante comum é aquela conhecida como irradiação. Trata-se de uma ação mental coletiva, realizada pelos encarnados em conjunto com os desencarnados, que atuam sobre os fluidos espirituais, usando pensamento e vontade, dotando-os de propriedades e qualidades de interesse no contexto, e os direcionam para as pessoas sujeitas da atenção do grupo. A irradiação viaja, por analogia, na forma de “ondas” de pensamentos, enviadas ao Espírito, “vivo” ou “morto”, onde quer que se encontre, pois a distância física não é obstáculo. O trabalho é essencialmente mental, conduzido por alguém que usa da palavra e vai direcionando o grupo para focar vontade e pensamento em determinadas pessoas, com propósitos específicos para cada um que é lembrado. Quem está à frente vai dizendo explicitamente esses objetivos e o contexto de cada criatura alvo da irradiação para favorecer a compreensão e, portanto, a participação ativa de todos. Um grupo que está coeso, como uma orquestra funcionando harmonicamente, melhora a qualidade e potencializa sua capacidade de ação fluídica. A irradiação beneficia também aqueles que dela se ocupam, pois: ajuda a desenvolver a solidariedade perante a dificuldade alheia; treina a concentração mental e o uso do pensamento focado; ensina o respeito na partilha das próprias questões e/ou a escutar a experiência dos outros; e exercita a elevação mental, colocando intimidade em mais elevado patamar de vibração. Da minha observação limitada, percebi que o mais habitual é de se fazer a irradiação depois das comunicações mediúnicas. Existem, por sua vez, reuniões criadas especificamente com esta finalidade de irradiar para as pessoas que deixam seus pedidos em caixas nos centros espíritas. O papel para mim é suporte de memória. Anotamos para lembrar das pessoas e dos pedidos e para registrar alguns detalhes. Pedaços de papel, caderninho etc., tanto faz. O que importa é o sentimento. Lembro-me com carinho das reuniões no centro familiar no quintal da casa de minha avó paterna: tinha um caderno de atas no qual se anotavam os nomes para irradiação, a começar por todos os parentes, encarnados e desencarnados. O ritual era repetido em toda sessão. Mais do que simplesmente anotar, era uma manifestação de carinho, uma retomada semanal que já valia por uma espécie de vibração inicial positiva. Sempre digo isso para as pessoas que me perguntam sobre esse tema. O fato de anotar o nome de alguém em um pedaço de papel já é valioso, pois é fruto de uma mobilização oracional sincera. Suicídios em foco Estudar a obra e a vida da médium Yvonne do Amaral Pereira tem me ensinado a desenvolver um profundo respeito pela questão do suicídio em uma perspectiva espírita humanista. Dela aprendi, dentre outras coisas, a lembrar-me sempre dos irmãos que retornaram ao mundo espiritual pela opção do autocídio. Acredito que é uma forma de contribuirmos com todos os envolvidos na delicada situação, ao mesmo tempo educando-nos para abandonar os julgamentos sumários, as leituras apressadas do ato e o moralismo rígido com os Espíritos suicidas. São as primeiras pessoas de quem me lembro ao conduzir uma irradiação, rogando à Deus, nossa Mãe generosa, que os acolha onde quer que se encontrem, e que recebam nosso carinho, nossas melhores vibrações muito positivas desejando a renovação da esperança em seus corações, na certeza de que terão as oportunidades para se reequilibrar e se repararem diante da própria consciência. Que sintam o amor divino incondicional que lhes favorecerá, em tempo propício, as chances de recomeço. Nesse mesmo contexto, irradiamos em favor das pessoas encarnadas que têm ideações autocidas bem como para aquelas que já fizeram uma ou mais tentativas de suicidar-se. Rogamos aos Espíritos trabalhadores do bem que encontrem caminhos de chegar ao coração delas e as auxiliar no sofrimento que lhes extingue o ânimo de viver. Pedimos que se abram ao auxílio espiritual que vem de tantas formas criativas e se permitam ser cuidadas nessa fase tão difícil. Finalmente, também pedimos em favor dos “órfãos” dos suicidas, aqueles que têm de lidar com a perda de alguém de modo tão abrupto. Que não alimentem culpas indevidas pelo que aconteceu, que recebam o conforto possível diante do quadro e que consigam ressignificar suas vidas e dar prosseguimento aos seus propósitos reencarnatórios, guardando a certeza do reencontro com os amados em um futuro apropriado. Vibramos em favor de pessoas e instituições que trabalham na prevenção e na posvenção do suicídio, pedindo que sempre encontrem as pessoas e os recursos necessários para cumprir sua tarefa. E rogamos a intervenção espiritual para frear o sadismo de infelizes, deste e do outro plano, que incentivam e ensinam as práticas de suicídio, por vingança pessoal ou perversidade sem destinatário específico. Abrindo o leque As vibrações podem ser destinadas a qualquer pessoa que esteja no “radar” do grupo, a começar por aquelas próximas aos integrantes, que façam pedidos de suporte espiritual. Às vezes são familiares em terras distantes passando por agruras; de outras vezes parentes com graves problemas de saúde; pode também ser um companheiro de atividade mediúnica, afastado, por transtorno mental ou desafios da vida familiar; alguém com um pedido específico de ajuda e por aí vai. Habitualmente nos lembramos de irradiar em favor das instituições de saúde (hospital, postinho, UPA etc.), pedindo tanto em favor dos adoentados, quanto pelos seus acompanhantes (quem cuida também precisa ser cuidado) e pelos trabalhadores desses locais. Para todos rogamos que recebam os fluidos, as presenças e os conselhos espirituais que lhes sejam os mais adequados, pois sabemos que a saúde do corpo e da mente são bens valiosos e ficamos amuados em sua ausência. Finalmente, podemos pedir também em nosso próprio favor e daqueles que amamos! Temos por hábito mentalizar cada cômodo da nossa casa, irradiando fluidos positivos, salutares, que gerem um ambiente de harmonia e de proteção espiritual, envolvendo todos que ali residem conosco. Frequentemente, no momento da irradiação, sentimos com mais intensidade a presença amorosa dos Espíritos amigos, que nos envolvem em sua atmosfera fluídica. Irradiar, portanto, é uma atividade que nos liga às necessidades dos outros e às nossas, produzindo efeitos calmantes, recuperação das perdas fluídicas, e facilitando a ação dos Bons Espíritos. Os fluidos espirituais assim trabalhados agem sobre o físico tanto quanto sobre o moral.

  • A leitura e o estudo como fonte de prazer

    por Magdala Monteiro “O estudo é a fonte de suaves e nobres prazeres; liberta-nos das preocupações vulgares e nos faz esquecer as tribulações da vida. (...) O livro é um amigo sincero, bem-vindo tanto nos dias felizes quanto nos dias ruins”. Assevera o nosso querido filósofo espírita, Léon Denis, em sua obra, Depois da Morte,  referindo-se a dedicação de uma leitura útil, que instrui, consola, anima, diverte e ainda propicia conhecimento. O prazer que se tem ao participar das ideias daquele que gravou através de seus escritos, os pensamentos que alimentava, é inenarrável. Além de ser também uma grande oportunidade de comunicação pelo pensamento que estabelecemos com o autor escolhido. Podemos identificar em cada autor lido, o valor de sua alma inscrita em cada linha de suas obras. Você já experimentou identificar a ideia de um autor? Denis indaga: “Não será uma das raras felicidades desse mundo comunicar-se pelo pensamento com os grandes espíritos de todos os séculos e de todos os países?” Ele acrescenta ainda que os grandes espíritos que já se comunicaram conosco através a variedade de literatura: (...) “Puseram no livro o melhor da sua inteligência e do seu coração. Conduzem-nos pela mão através dos dédalos da História; guiam-nos para as altas regiões da Ciência, da Arte, da Literatura. Ao contato dessas obras que constituem os mais preciosos bens da Humanidade, compulsando esses arquivos sagrados, sentimo-nos engrandecer, sentimo-nos orgulhosos... A irradiação de seu pensamento estende-se sobre nossas almas, reaquece-as, exalta-as. Saibamos escolher bons livros e habituemo-nos a viver no meio deles” (...)  Pausemos para um momento reflexivo: Será que andamos demasiadamente ocupados para escolhermos uma boa leitura e nos beneficiarmos dela, e ainda criarmos meios e recursos para divulgarmos o conhecimento adquirido? Para ilustrar o questionamento, destaco o que dizem os especialistas modernos sobre adquirir o hábito de ler e estudar: há a necessidade de se escolher um ambiente adequado para ler, estudar; buscar conhecer sobre o autor da leitura; fazer reflexões sobre o que lê e ainda ter um planejamento das leituras e dos estudos. São estratégias que nos oferecem para um bom aproveitamento. Ao fazermos uma rápida pesquisa no dicionário, vamos encontrar a palavra estudo como: o processo em que uma pessoa se dedica em buscar informação útil sobre determinado assunto ou disciplina. Parece-nos que seja assim que realinhamos nossas ideias e nos mantemos em uma linha de pensamento, percebendo e sentindo a vida que se realiza no contato com as melhores ideias, a fim de   descobrirmos que potenciais detemos, e à serviço de que estão, pois esse pensar não se destina a ficar  guardado, mas é para ser ativado, desenvolvido diariamente. Marilena Chaui, filósofa, nossa contemporânea, defende a importância do estudo, porque o vê como ato que favorece a emancipação das criaturas e a formação de cidadãos críticos, que ao se desenvolverem reproduzem o conhecimento, intervindo na sociedade. Estudar é um processo que promove a criatividade, é político em sua essência, pois indivíduos que aprendem que ações, em sua comunidade são melhores para todos, não se coloca como um mero objeto para atender ao mercado de trabalho. Se o objetivo é nos tornamos ativos e críticos, como Chauí diz, capazes de pensar no todo, pergunto: por onde andam as nossas preocupações quando se trata de obtenção de conhecimento? Que tipos de leituras ocupam as nossas mentes no cotidiano? Será um exagero ter tanta preocupação, quanto as escolhas com a leitura que devemos eleger? Acredito que o hábito do estudo propicia que nossos potenciais se expandam e então emitamos sentimentos que são dádivas aos que conosco compartilham os caminhos. E assim promovemos muitas oportunidades de iluminar mentes sedentas de conhecer, para também se autorrealizarem. A nossa divulgação pode ser tocha, que clareia estradas! O tempo presente é feito de dias difíceis, vive-se às voltas com lutas que parecem intermináveis, mas a leitura, o estudo, a dedicação de alguma hora do nosso dia   podem favorecer boas ideias e ações para o bem comum. Quando os males vão passar, não sabemos, mas o bem há de prevalecer. Quando nos informamos, iluminamos as nossas trilhas e contagiamos os outros. Os espíritos luminares que a história nos lembra, deixaram legados, muitas vezes com ideias que trouxeram a revolução de pensamentos, modificando o que antes estava estabelecido e que já não atendia mais aos ideais das criaturas. Porque ao dialogarem com novos conhecimentos, duvidaram, raciocinaram, refletiram e buscaram compreender que novos caminhos podiam seguir e sugerir. Não duvidemos do esforço envidado por aqueles que se debruçaram a escrever suas obras ricas de reflexões e nos brindar com o prazer de ler, estudar, pensar e apreender. O nosso entendimento cada vez maior da realidade da vida se faz através do exercício de meditar sobre as questões para agirmos com sabedoria. É através do estudo contínuo que mantemos as nossas mentes dirigidas, que escapamos do desequilíbrio mental, onde as inquietações, inseguranças e ilusões não encontram guarida. O coração que busca a boa leitura, o perquirir permanente, cria recursos internos para manter-se firme diante das circunstâncias, com a mente direcionada para o bem-estar próprio, social e espiritual, desvendando o porquê da vida . E você tem dedicado alguns minutos a leitura?

  • O Evangelho basta na reunião mediúnica?

    Por Gabriel Lopes Garcia Eu gosto muito de conversar com os Espíritos no contexto das atividades espíritas. É um hábito que me educa para certas nuances da vida espiritual, do processo psicológico que acompanha a morte e seus desdobramentos. Além disso, em muitas ocasiões, a depender das condições em que se apresentem os comunicantes, podemos oferecer-lhes algum auxílio: esclarecer sobre a passagem, acalmar as aflições, reerguer os ânimos, interceder em obsessões etc. Não sou adepto da ideia de que a reunião mediúnica tem como principal finalidade ajudar Espíritos “sofredores” (quem de nós não o é?). Considero essa posição piegas e arrogante. Nada obstante, na variedade dos contatos, surgem aqueles a quem prestamos apoio, dentro dos limites que a mediunidade coloca para tal empreendimento. É natural que busquemos os melhores recursos para utilizar nessas ocasiões em favor dos que nos chegam precisando de suporte. Em uma das entrevistas que conduzi ao vivo pela internet sobre o tema reunião mediúnica, uma pessoa escreveu posteriormente um comentário que motiva esse texto. Ela se expressou assim: “O Evangelho basta para ajudar e esclarecer os Espíritos em reunião mediúnica? Pois na reunião em que trabalho como médium, acho que outras fontes de conhecimento humano seriam importantes também para aclarar a consciência dos desencarnados. Já que atendemos uma diversidade de irmãos. Nenhum é igual ao outro.” Eu acho a questão muito pertinente e a argumentação dela também. Concordo com o início de resposta que ela mesma propôs. Na sequência apresentarei meu raciocínio, desenvolvendo minha posição sobre o assunto, que entrego para seu exame. Estou convencido de que é importante uma reflexão dessa pergunta, pois o caminho escolhido poderá revelar uma postura aberta à pluralidade de indivíduos, crenças, ideias e procedimentos, ou fechada em uma bolha dogmática e pretensiosa. Religião, cultura e psiquismo Em primeiro plano, uso aqui a palavra Evangelho no sentido simbólico, quero dizer, como o conjunto de ensinos morais atribuídos a Jesus de Nazaré e registrados por outras pessoas. Acompanho o entendimento de Kardec e penso que toda a mensagem evangélica tem a prática do amor e da humildade como núcleo central. Isso é uma orientação que podemos (acredito que devemos) usar no trato com os Espíritos. Falar com gentileza, acolher e validar sentimentos, ouvir mais do que falar, conversar em pé de igualdade, auxiliar sem a pretensão de resolver os problemas. No sentido de práticas das virtudes evangélicas, penso que o Evangelho basta, pois oferece orientação segura para agir respeitosamente perante os Espíritos. Mas estendo o argumento para o fator cultural. Nós fazemos parte de uma sociedade cristã, somos criados imersos nessa mundividência. Para muitos comunicantes é a referência à Bíblia, o oferecimento de um Pai Nosso ou a figura de Nossa Senhora que lhes dá alívio e confiança no diálogo mediúnico. Para estes desencarnados, as referências ao Evangelho são poderosos auxiliares, têm efeito psicológico positivo. Mas, considerando o comentário citado acima, é evidente que nem todo Espírito vive segundo o cânone cristão. Logo, para estes, é necessário fazer uma abordagem que use recursos do seu sistema de crença. Pensemos em alguém do Candomblé, ou da Umbanda, ou muçulmano, ateu e por aí vai. Para estes, o Evangelho não basta, nesse sentido do conteúdo em si. Frente à diversidade e singularidade humanas, convém adaptarmos as abordagens de acordo com cada criatura, respeitando-lhe as preferências. É importante que o trabalhador da reunião mediúnica amplie seu repertório e se interesse pelas outras expressões de fé. Cada Espírito merece um diálogo que atenda às suas necessidades afetivas e psíquicas. As outras tradições religiosas têm conceitos e práticas valiosos que podemos aprender e utilizar no intercâmbio mediúnico. Morto é gente como a gente Ademais, penso que, para além de considerar a diversidade religiosa, os conhecimentos de psicologia são muito úteis nos diálogos com os Espíritos. Digo assim de forma genérica pois a maioria de nós que trabalha na reunião mediúnica não somos psicólogos de formação profissional. Não defendo que devamos nos atrever a agir como se fôssemos, não é isso. Entendo que informações básicas sobre emoções, motivação e relacionamentos humanos ajudam a “calibrar” abordagens de acordo com o perfil do comunicante. Reunião mediúnica não é consultório de psicologia, embora tenha efeitos terapêuticos para os participantes de ambos os planos da vida. Nesse aspecto, observo que podemos aprimorar o que chamo de “tato psicológico”, uma maneira compassiva de receber e de conversar com os Espíritos. E conjugar a isso a assertividade, um modo franco, polido e natural de conversar com qualquer comunicante. Repare que esse conjunto de ferramentas informacionais e relacionais está além da mera citação ao Evangelho, que claramente não basta para todas as situações. Finalmente, defendo que, para auxiliar os Espíritos no contexto da reunião mediúnica espírita, é fundamental estudar o Espiritismo. São os conceitos doutrinários bem compreendidos que permitem compreender o que se passa com o Espírito. Estou me referindo a: perispírito, natureza fluídica do mundo espiritual, desligamento dos laços entre corpo e perispírito, sensações e percepções dos Espíritos, como acontece o processo mediúnico, obsessão, reencarnação, famílias espirituais etc. Os conhecimentos espíritas são muito importantes para entender a situação do Espírito comunicante, a dinâmica do mundo espiritual, os aspectos psicológicos da fase de adaptação pós morte, dos apegos ao mundo material e os sofrimentos decorrentes do estilo de morte. Tudo isso vai além de aplicar o Evangelho , são informações técnicas produzidas no contato mediúnico e pela teoria espírita. São ferramentas sem as quais o auxílio fica bastante restrito e precarizado, quando não inviabilizado pela ignorância e pelo medo. Em todo caso, penso que as abordagens devem ter ênfase no cuidado e no conhecimento. Conversar com humildade, usando linguajar e ideias acessíveis ao Espírito necessitado de nossa ajuda. Este auxílio é educativo, pois nos ensina que estender a mão é dever de fraternidade. Nessa tarefa, o Evangelho poderá ser suficiente no escopo de conduta moral dos tarefeiros, mas não o é para a variedade cultural dos comunicantes e nem possui as informações de natureza mediúnica e espiritual que são necessárias para compreender e intervir eficazmente no quadro apresentado.

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