Chico Xavier me disse
- 27 de fev.
- 4 min de leitura
Gabriel Lopes Garcia
O legado mediúnico de Francisco Cândido Xavier é disputado pelos espíritas interessados em abocanhar seu capital simbólico e explorar a imagem dele. É um negócio lucrativo divulgar supostos segredos do médium, atribuindo-se a exclusividade da informação. Os comerciantes da mediunidade descobriram esse filão no Espiritismo brasileiro.
Desde quando estava encarnado que Chico era tratado como pessoa extraordinária e, informalmente, converteu-se em um santo dos espíritas. Os livros sobre sua vida e “lindos casos” estão mais para o gênero hagiografia do que para biografia. Após a sua morte, a idolatria continua e os mercadores mediúnicos exploram a figura do médium em várias frentes comerciais: turismo religioso em Uberaba, eventos dos “amigos” de Chico Xavier e, principalmente, publicação de vídeos e livros com revelações bombásticas.
O artifício mais utilizado é contar um segredo que teria ouvido pessoalmente de Chico Xavier. Os impostores falam em nome do médium defunto, dizem que foram orientados a guardar a informação somente consigo e que teriam a permissão de revelar tudo após a morte dele. A palavra do autointitulado revelador basta e não é possível verificar a veracidade das afirmações, por mais esdrúxulas que sejam. Ou seja, pessoas que tiveram algum contato com Chico usam isso como escudo contra as críticas que porventura recebem.
Os comerciantes xaverianos alegam ter tido conversas particulares com o médium, nas quais ele supostamente teria feito várias revelações espirituais. Os exploradores mais inescrupulosos inventam até supostos encontros com Chico no mundo espiritual. A estratégia é usar o contato pessoal como fator de autoridade da narrativa. Dessa convivência teriam obtido acesso exclusivo a certas informações. Assim tentam dar credibilidade ao golpe e, simultaneamente, partem para o ataque, rotulando de perseguição qualquer dúvida sobre a autenticidade do conteúdo que revelam.
Campo espírita
De acordo com a sociologia, a disputa está no centro da noção de campo. De modo abrangente, um campo é um espaço estruturado pela relação entre “agentes” (pessoas ou instituições) que têm um interesse em comum. No campo espírita, os agentes são cada centro, federativa ou instituição, assim como cada médium, palestrante ou dirigente. O que os une é a relação de disputa permanente entre eles.
No campo espírita, as posições dominantes têm mais prestígio, número de adeptos e influência, por exemplo, para indicar qual é a interpretação correta do texto kardequiano, quais são os erros, as ortodoxias e as heresias doutrinárias e assim por diante. A distribuição de poderes dentro de um campo é desigual. No meio espírita, o ramo chiquista adquiriu condições simbólicas e materiais para ter mais influência para definir o que é doutrinariamente “correto”.
A mediunidade é a maior fonte de autoridade no campo espírita brasileiro. Chico Xavier é a principal referência de prática e conteúdo mediúnicos. Logo, os agentes disputam o capital simbólico do médium mineiro, posto que a sua obra já ocupa uma posição dominante. A estratégia é apropriar-se de sua imagem e discurso para tentar ocupar as posições mais altas do campo espírita.
Parte daqueles que conheceram Chico Xavier encarnado instrumentalizam a convivência com ele para dar o verniz de verdade sobre o que afirmam ter sido dito por ele. Nesse contexto, a tática “Chico Xavier me disse” é muito bem-sucedida, pois muitas pessoas são curiosas com a intimidade do médium mineiro, ávidas por novidades e revelações, crédulas em qualquer informação sobre ele.
A curiosidade pela aproximação
Ainda encarnado, Chico Xavier já era figura de destaque no meio espírita e até mesmo além dos círculos espíritas, principalmente por causa das aparições na TV Tupi e das concorridas sessões de psicografia de cartas. Ele se transformou no ícone máximo do Espiritismo brasileiro, referência de mediunidade. Foi se construindo gradualmente a idolatria de sua pessoa. Naturalmente, sua vida e sua obra despertavam interesse na população: sempre faziam sucesso reportagens em revistas, matérias na televisão e livros sobre o médium.
O livro “Chico Xavier na intimidade”, de Ramiro Gama, é o exemplo perfeito disso. O título mostra o valor do conteúdo, pois anuncia uma proximidade desejada pelo público ao oferecer casos inéditos com relatos pessoais do médium. De acordo com a propaganda de uma editora dessa obra, o diferencial é que a maioria dos casos ocorridos com o médium foram obtidos de convivência estreita e particular com o autor.
Repare que há um valor agregado às narrativas, que é justamente o fato de serem oriundas da convivência com Chico e, muitas delas, relatadas pelo próprio médium. Desde o século passado que essa deferência ocorre também em outros formatos, em particular nas palestras públicas. É muito comum que tais casos, e opiniões de Xavier, sejam lançados como argumentos doutrinários de autoridade, pois se a “maior antena psíquica” da história falou, então é certo, deve ser replicado e aceito.
Portanto, o interesse e a valoração da vida íntima de Chico Xavier e de suas posições sobre assuntos espíritas e mediúnicos, é uma característica marcante da comunidade espírita que foi iniciada ainda quando ele estava encarnado, e prossegue atualmente conduzida pelos chiquistas. É neste cenário que agem os comerciantes xaverianos. Mas, há duas diferenças importantes de comportamento das pessoas do tempo passado para os picaretas contemporâneos: (1ª) O conteúdo dos livros publicados no século XX eram passíveis de verificação da veracidade das informações com o próprio médium, que sempre foi acessível a qualquer pessoa interessada em interagir com ele; (2ª) Os antigos autores não auferiram lucro com as publicações, pois os direitos autorais eram doados para instituições filantrópicas espíritas ou para as editoras espíritas que as publicaram.



Comentários