Kardec sob o olhar da Modernidade
- 31 de mai.
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por Claudia Nunes
No cenário dos Espiritismos brasileiros, atualmente, há um debate: de um lado, as pessoas discutem a importância de alinhar os pensamentos filosóficos de Kardec com as ciências e os desafios do século XXI; de outro, há quem tenha receio de acabar “desnaturalizando” o ensino do Espiritismo.
Espiritismo se sustenta em três pilares: ciência, filosofia e religião, e para o século XXI dimensionamos o aspecto pedagógico.
Neste artigo, vamos dar ênfase à filosofia, entendendo o contexto em que Kardec viveu e o impacto de suas ideias em nossos tempos.
Ao analisar a própria obra de Kardec, fica claro que ele tinha uma preocupação grande em estar alinhado com as ciências da época. Isso fica evidente por meio de sua metodologia de pesquisa em torno do fenômeno mediúnico, na construção de sua obra.
Podemos compreender a filosofia, de forma geral e prática, como o estudo das questões relacionadas ao ser humano e ao mundo que o cerca, envolvendo temas como ética, moral, linguagem, existência, verdade e conhecimento. O século XIX foi caracterizado por debates intensos no campo do conhecimento (episteme), da sociedade e do papel da razão.
Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido como Kardec, viveu esse período em que diversas correntes filosóficas estavam em destaque, analisando o ser humano de diferentes maneiras. Algumas dessas correntes colocavam o próprio homem como centro, deixando Deus de lado como o fator inicial, e marcando assim a transição para a Idade Moderna. Moderno entendido aqui como termo que, de acordo com o historiador alemão Hans Ulrich Gumbrecht (1948-), significa a experiência histórico-cultural da modernidade utilizada desde a Antiguidade para designar um tempo presente, que se entende como diferente do passado. Essa mudança trouxe novos pensamentos, questionamentos e influenciou o desenvolvimento da ciência na época.
Como pesquisador, Kardec escreveu levando em consideração tudo o que acontecia ao seu redor e utilizou esses conhecimentos para criar a Doutrina Espírita, usando os métodos disponíveis na sua época. Kardec desenvolveu sua obra alinhada ao que ficou conhecido como positivismo, uma corrente filosófica formulada no século XIX por Auguste Comte (1798-1857). O pensamento positivista defende a ideia de uma evolução contínua e progressiva, na qual a humanidade tende a avançar constantemente. Essa visão, aliada ao ideal iluminista de progresso, considera que a ciência e a tecnologia podem promover o bem-estar social, tornando a sociedade mais justa por meio da racionalidade, refletindo a concepção do Homo sapiens, como o “penso, logo existo” (pensamento racional cartesiano). No entanto, mesmo com esse avanço intelectual, os séculos seguintes não trouxeram necessariamente uma melhoria na qualidade de vida das pessoas. No cenário histórico em que se inseria, a filosofia dedicava-se às problemáticas sociais em transformação, gerando novas questões sociais, estilos de vida, mudanças nos sistemas políticos e nas formas de convivência.
No século XIX, o iluminista Marie Jean Antoine Nicolas de Cáritat, o Marquês de Condorcet (1743-1794), testemunhou com precisão esse sentimento moderno de ruptura, e escreve: “Vivemos uma era única na história humana, uma era de progresso, de avanço, de império da razão. As nossas esperanças quanto à condição futura da espécie humana podem se reduzir a estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações; os progressos da igualdade num mesmo povo; e, finalmente, o aperfeiçoamento real do homem” (Condorcet, 1995, p. 12).
Em outra perspectiva, e de uma maneira hipotética, se colocássemos um homem de Jerusalém da época de Jesus em uma máquina do tempo, e transportássemos esse indivíduo para um período em que os otomanos governavam a cidade (1800), ou ainda para outra época do século XIX, ele teria imensas dificuldades em se adaptar ao estilo de viver contemporâneo. O avanço tecnológico de nosso período o deixaria perplexo e essa adaptação dificilmente ocorreria sem prejuízo a ele mesmo.
Assim estruturado, podemos compreender a necessidade de se abrir novos debates à luz do espiritismo, correndo o risco de não atender ao próprio pensamento de Allan Kardec: “O Espiritismo marcha sobre o mesmo terreno que a ciência, até os limites da matéria tangível”. (Revista Espírita, março de 1868).
Kardec sempre busca um diálogo com questões psicológicas, filosóficas, pedagógicas, antropológicas, evolucionistas e de muitas outras áreas, interseccionando inegavelmente o diálogo entre espiritismo e ciência.
Muitas questões ainda não haviam sequer surgido, ou ainda não tinham esse destaque que temos atualmente, como o racismo estrutural, as questões de gênero, da estrutura de família moderna, as questões ambientais, de tecnologia, entre tantas outras que despontam no dia a dia da modernidade e que acompanham o homem encarnado no planeta.
Como espíritas, temos a responsabilidade, até mesmo ética, de discutirmos esses problemas, principalmente os de cunho social, justificado pelas Leis Morais, de O Livro dos Espíritos, na parte terceira.
O fato de a doutrina espírita sintonizar com uma fé raciocinada nos coloca dentro do debate com todas as questões pertinentes ao progresso da humanidade, que só poderão ocorrer por intermédio de uma nova visão acerca da sociedade, que seja mais justa para os indivíduos. Para essa efetivação, é essencial a dialética entre fé e razão, com viés de complementaridade, deixando evidente essa tomada de consciência com base na afirmativa: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade”.
Referências bibliográficas
CONDORCET, Antoine-Nicolas. O progresso do espírito humano. In: GARDNER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.
GALOR, Oded. A jornada da Humanidade: as origens da riqueza e da desigualdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2023.
GUMBRECHT, Hans. Modernização dos sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Disponível em: https://kardecpedia. com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espíritos. Acesso em: 26 out. 2025.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos 1868. Brasília: FEB, 2019. PORFÍRIO, Francisco. Positivismo. Brasil Escola. Disponível em: https://brasi lescola.uol.com.br/sociologia/positivismo.htm. Acesso em: 20 out. 2025.
SIGNATES, Luiz. A filosofia espírita da fé raciocinada. Espiritismo com Kardec, 2 set. 2021. Disponível em: https:// www.comkardec.net.br/a-filosofia--espirita-da-fe-raciocinada-por-luiz-signates/. Acesso em: 23 out. 2025.
Indicações de leituras complementares:
JÚNIOR, Alexandre (org). Teoria Social Espírita: fundamentos da igualdade e justiça. Limeira. SP: O Espírito Político/Editora do Conhecimento, 2025.
LAURINDO, Ana Claudia. (R)evolução política dos espíritos. Maceió: Editora CBA, 2024



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