"Tem gente em situação pior"
- 7 de ago.
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Por Gabriel Lopes Garcia
É grande o número de pessoas que adentram as instituições espíritas em busca de conforto para os sofrimentos que estejam experimentando. Perante tal demanda, é preciso preparo adequado para ajudá-las, no trabalho chamado de atendimento fraterno e em todas as atividades nas quais elas se manifestem pedindo apoio emocional. Acolhê-las com o devido cuidado para que a interação seja tranquilizadora.
Embora eu não queira (e nem possa) ditar regras para os companheiros de Doutrina Espírita, acredito que a frase “Tem gente em situação pior” deve ser evitada de ser dita a quem sofre. Acredito que seja uma das mais prejudiciais, pois considero cruel obter alívio por esse motivo, e porque provavelmente produz o efeito contrário ao pretendido: amplifica o sofrimento ao invés de o reduzir.
A dor como competição
O hábito de ficar nos comparando com os outros piora nos momentos de dor, pois observamos a vida alheia e tudo parece melhor e mais alegre do que a nossa. Criamos um pódio da desgraça. Muitas vezes questionamos se Deus estaria distribuindo de modo justo as dores entre seus filhos. A gente pensa diferente quando sofre, tem uma outra lógica aplicada na avaliação dos acontecimentos.
Mas o sofrimento não funciona como um ranking. A intensidade de um estado emocional é determinada pela relação entre a experiência e os traços de personalidade de cada um, suas crenças e valores, o sistema nervoso de quem a vive. Não sofremos com base na posição desse evento em uma escala comparativa externa. Não processamos a dor em relação à dor de outra pessoa.
Efeitos ruins
Quando uma pessoa compara a sua dor com a de outra, o que geralmente acontece é uma supressão: é como se fosse uma instrução psicológica para não sentir o que está sentindo. Isso, além de não eliminar o estado, adia o seu processamento. O sofrimento continua presente, mas com o acréscimo de uma conclusão de que senti-lo é um problema em si. Não é o que desejamos para alguém que nos solicita auxílio.
As pesquisas científicas mostram que a invalidação emocional, o ato de tratar uma resposta emocional como desproporcional ou injustificada, aumenta a intensidade do estado emocional e dificulta a sua regulação. No contexto de centro espírita, talvez o trato com o luto seja o que merece mais atenção nesse tópico, para não menosprezarmos a dor da separação com o discurso da sobrevivência da alma.
Escuta atenta e validação
Existe um paradoxo bem documentado na literatura sobre regulação emocional: quando alguém se sente compreendido sem julgamento, a intensidade emocional tende a cair. Validar não significa concordar com a causa do sofrimento, mas reconhecer que o estado existe e faz sentido para quem o vive. Esse é um forte motivo para evitar o julgamento ferrenho de espíritas nessas ocasiões.
A comparação hierárquica serve, sobretudo, a quem a faz: encerra uma situação desconfortável sem exigir presença real. Para quem recebe, o custo é duplo: o sofrimento original permanece e acrescenta-se a este a culpa por estar sofrendo. A proposta espírita de apoio tem por base a caridade e o respeito. Ouvir e pensar antes de falar, falar com ponderação, sempre validando o relato emocional da pessoa.
Conclusão
O ambiente invalidante é um componente central no desenvolvimento de dificuldades graves de regulação emocional. Isso não significa que contextualizar sofrimento seja sempre prejudicial. O indicado é adequar o momento e a função: contextualizar pode ser útil depois que alguém se sente ouvido. Comparar antes disso interrompe o processo antes mesmo que este comece.
O sofrimento precisa ser processado para perder intensidade. Redirecionar ou desqualificar o estado adia esse processamento. Confrades espíritas, dizer “Tem gente em situação pior” não é consolo frutuoso, pois tem efeito contrário ao pretendido. Saber disso é útil para mudar o que se diz quando alguém está em sofrimento. Usemos o rico manancial do Espiritismo para praticar a escuta e falar auxiliando, efetivamente.
Artigo em parceria com Blog “Estudos de Cultura Espírita” (https://medium.com/@cultespirita) de julho 2026



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