Lamennais
- mariamagdalaam
- 14 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
por Rodrigo Farias
Nascido numa família aristocrática em 1782, Felicité de La Mennais, muito influenciado pelo seu irmão Jean-Marie, buscou desde cedo a vida religiosa. Em 1809, os dois irmãos escreveram um livro a quatro mãos, Reflexões sobre o estado da Igreja na France durante o século 18 e sobre sua situação atual. Nele, Félicité, que era o principal redator, já mostrava um talento com as palavras que o marcaria pelo resto da vida.
Já nesse primeiro livro, Felicité, argumentava pela independência da Igreja em relação às interferências do Estado. Quem nos acompanha desde o primeiro episódio vai reconhecer essa plataforma na França da época: é a do ultramontanos, que tomavam o partido do poder do papa, em contraposição aos galicanistas, que admitiam o direito do rei de influenciar em vários dos assuntos do clero, inclusive nomeando bispos. Para os irmãos La Mennais, esse era o caminho para curar as feridas que a Revolução Francesa deixara no país. Porém, eles também faziam uma proposta arrojada: o apoio ao regionalismo político, isto é, a revitalização de instituições locais, descentralizada, como meios de ajudar na difusão da mensagem cristã no país e se contrapor aos oponentes não católicos da Igreja. Tudo isso desagradou à polícia de Napoleão, que censurou a obra. Félicité não se deixou intimidar: cinco anos depois, lançou outro ataque ao Galicanismo, agora escrevendo sozinho. Deu sorte: quando o livro foi impresso, Napoleão tinha acabado de ser derrotado e mandado para o exílio. Começava a época da Restauração, e o trono foi para Luís XVIII, irmão de Luís XVI.
Para os ultramontanos, era a glória! Um rei católico voltava a governar a França. Félicité louvou o novo monarca e começou a se dedicar à obra que o tornaria famoso: o Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião, em quatro volumes escritos ao longo de anos. Desde o começo, o Ensaio foi um sucesso absoluto, vendendo 40 mil exemplares em algumas semanas, um feito e tanto na época (aliás, até hoje). Félicité, agora sim conhecido como La Mennais, tornou-se uma estrela ascendente entre o clero francês. E por quê? Bem, primeiro pelas ideias: no livro, ele diz que a indiferença em questões religiosas não era uma atitude neutra, mas, pelo contrário, uma forma de ateísmo que fazia mal à sociedade. Não bastava dizer que a religião era útil porque ajudava a manter a ordem pública, como muitos pensavam, até ateus; a religião (leia-se: o Catolicismo) era uma revelação de Deus. E o argumento que ele apresentava era o do “senso comum”: a verdadeira religião seria aquela que apresentava o maior número de testemunhos a seu favor, não só no presente, mas ao longo da história. Isso significava, claro, o Catolicismo. E, para provar sua tese, La Mennais pesquisou várias outras religiões, inclusive as orientais, a fim de demonstrar, por A + B, a superioridade histórica do cristianismo católico.
La Mennais não era apenas brilhante, mas também era dotado de uma retórica muito afiada. Essas qualidades lhe renderam um círculo de discípulos, os “mennaisianos”, importantes na revitalização do Catolicismo francês. Quando foi recebido no Vaticano, em 1824, La Mennais já era um dos maiores nomes do clero do país e um ídolo para os padres mais jovens — o campeão dos ultramontanistas.
Mas a insistência da Coroa francesa no Galicanismo continuava, para desgosto de La Mennais e seus companheiros. Portanto, quando a Revolução de Julho de 1830 implantou a monarquia liberal de Luís Filipe de Orléans, La Mennais apoiou os revolucionários. Chegara à conclusão de que os conceitos do liberalismo podiam ser usados a favor da Igreja. Para defender essa causa, em 1831, ele e alguns dos seus seguidores mais próximos, como o talentoso Pe. Henri de Lacordaire, lançaram um jornal próprio, o L’Avenir (“O Futuro”). Nele, defendiam sem meias-palavras a separação entre Igreja e Estado, bem como outras propostas liberais, como a liberdade de consciência, de imprensa e de expressão. Acreditavam estar defendendo o melhor do Catolicismo e tornando-o palatável aos novos tempos — o que foi chamado de Catolicismo liberal.
Só havia um problema: a Igreja como um todo não era liberal, muito pelo contrário. O papa da época, Gregório XVI, era um grande conservador e entendia que era do interesse da Igreja ajudar a “manter a ordem” na Europa e no mundo. Depois dos desastres da Revolução Francesa e de Napoleão, a prioridade católica era manter o máximo possível de seu poder e influência, tanto no campo espiritual quanto no político. Em outras palavras, nada de defender liberdades — uma ideia perigosa — nem de renunciar ao apoio do Estado. Por séculos, a fórmula trono e altar tinha funcionado muito bem para a Igreja, e o papado de Gregório XVI queria continuar com ela.
Quando o L’Avenir foi atacado por clérigos conservadores, La Mennais resolveu suspender a publicação do jornal e submeter seus princípios à apreciação de Roma. Achava que o endosso do papa calaria a boca dos inimigos e faria da Igreja uma aliada do progresso político e social. Sua confiança era tanta que ignorou conselhos em contrário e foi pessoalmente a Roma pressionar por uma resposta rápida. Depois de um “chá de cadeira” de meses e de ter sido gentilmente mandado de volta para casa, a resposta oficial veio em agosto de 1832, na encíclica Mirari Vos. Sem citar o nome de La Mennais, o papa condenou o pluralismo religioso e muito do que L’Avenir defendia. Nosso herói ficou em choque.
Em respeito ao papa, La Mennais manteve o jornal fechado. Porém, em particular, não escondeu seu desagrado. O temperamento combativo, tanto quanto o intelecto, era um traço forte de Lamennais. Pediram-lhe que fizesse declarações de submissão incondicional ao papa e renunciasse explicitamente às ideias de L’Avenir. Recusou-se. A atitude fez com que perdesse quase todos os amigos católicos, inclusive o irmão. A ironia era óbvia: depois de anos lutando pela autoridade da Igreja, quando ela se voltou contra ele e suas ideias, Lamennais não quis aceitar. Em resposta, renunciou aos seus votos religiosos em 1833 e, em 1834, implodiu de vez sua relação com a Igreja ao lançar o livro Palavras de um homem de fé. Nessa obra, em linguagem poética e apocalíptica, La Mennais denuncia a exploração das massas por líderes políticos e religiosos (incluindo o papa). A resposta veio rápida: em 1835, o livro foi denunciado explicitamente em uma nova encíclica, Singulari Nos. Nela, o papa diz que o livro "Corrompe as pessoas por um perverso abuso da palavra de Deus, para dissolver os vínculos de toda ordem pública e enfraquecer toda autoridade [...] desperta, promove e fortalece sedições, tumultos e rebeliões nos impérios [e] contém proposições falsas, caluniosas e precipitadas que levam à anarquia; que são contrárias à palavra de Deus; que são ímpias, escandalosas e errôneas; e que a Igreja já condenou."
Daí para frente, Lamennais nunca mais se disse católico. Mudou a grafia do seu sobrenome aristocrático, de la Mennais, para Lamennais (tudo junto), encobrindo sua raiz nobre. Mudou seu entusiasmo pela Igreja para a devoção ao povo como fonte de sabedoria e autoridade. Passou a falar de temas políticos e sociais, sempre do lado da oposição ao status quo e defendendo um republicanismo tingido de socialismo cristão. Escreveu sobre os trabalhadores, a democracia, a escravidão e outras questões que fervilhavam nos debates da época. Em 1841, teve um livro censurado e chegou a ser preso por um ano, tempo que aproveitou para compor outro livro, Uma voz da prisão (sem tradução em português).
Nessa mesma década de 1840, voltou a escrever sobre temas religiosos. Elaborou uma filosofia deísta expressa em seu livro Esboço de uma filosofia. Nela, apresentava um quadro do universo em que os planetas eram seres vivos, e todos os seres se interligavam como partes de um grande organismo, e tudo evoluía de forma racional e linear regido por um Deus imanente e essencialmente bom. As catástrofes que aconteciam eram pontuais, sem impacto duradouro. O mal era apenas uma ausência do bem, e crenças cristãs como o pecado original, as penas eternas e a divindade de Cristo não tinham lugar. Também publicou uma edição comentada dos Evangelhos e uma narrativa mítico-poética, Amschaspands et Darvands, inspirada por suas leituras sobre o Oriente. Nela, uma raça de extraterrestres semidivinos visita a Terra, observa a humanidade e deixa um relato de suas impressões no Oriente. Ali, concluem que a raça humana vive em estado de sujeição e sugerem a democracia como solução.
Por fim, quando veio a Revolução de 1848, que derrubou a monarquia e instituiu uma república democrática – com o sufrágio universal masculino – Lamennais elegeu-se deputado e escreveu uma proposta de Constituição, rejeitada pelo parlamento por ser tida como radical demais. Quando o presidente Luís Napoleão deu um golpe de estado em 1851 e instituiu uma ditadura, sob o nome de Napoleão III, Lamennais retirou-se da vida política. Isolado politicamente, dedicou-se apenas a seus estudos e fez uma tradução da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Faleceu em 1854 e foi sepultado sem qualquer rito, por conta de seu conflito com a Igreja. Mas a sua carreira ainda não estava no fim.
Poucos anos depois, Lamennais ressurge como um nome recorrente entre os colaboradores desencarnados de Allan Kardec. Nos seus textos, assuntos como a questão da caridade para com criminosos, a escravidão e o estado de certos espíritos culpados no mundo espiritual são tratados com verve e clareza. A luta por um mundo mais justo continuava, mesmo além do túmulo.





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