O Evangelho basta na reunião mediúnica?
- mariamagdalaam
- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Por Gabriel Lopes Garcia
Eu gosto muito de conversar com os Espíritos no contexto das atividades espíritas. É um hábito que me educa para certas nuances da vida espiritual, do processo psicológico que acompanha a morte e seus desdobramentos. Além disso, em muitas ocasiões, a depender das condições em que se apresentem os comunicantes, podemos oferecer-lhes algum auxílio: esclarecer sobre a passagem, acalmar as aflições, reerguer os ânimos, interceder em obsessões etc.
Não sou adepto da ideia de que a reunião mediúnica tem como principal finalidade ajudar Espíritos “sofredores” (quem de nós não o é?). Considero essa posição piegas e arrogante. Nada obstante, na variedade dos contatos, surgem aqueles a quem prestamos apoio, dentro dos limites que a mediunidade coloca para tal empreendimento. É natural que busquemos os melhores recursos para utilizar nessas ocasiões em favor dos que nos chegam precisando de suporte.
Em uma das entrevistas que conduzi ao vivo pela internet sobre o tema reunião mediúnica, uma pessoa escreveu posteriormente um comentário que motiva esse texto. Ela se expressou assim:
“O Evangelho basta para ajudar e esclarecer os Espíritos em reunião mediúnica? Pois na reunião em que trabalho como médium, acho que outras fontes de conhecimento humano seriam importantes também para aclarar a consciência dos desencarnados. Já que atendemos uma diversidade de irmãos. Nenhum é igual ao outro.”
Eu acho a questão muito pertinente e a argumentação dela também. Concordo com o início de resposta que ela mesma propôs. Na sequência apresentarei meu raciocínio, desenvolvendo minha posição sobre o assunto, que entrego para seu exame. Estou convencido de que é importante uma reflexão dessa pergunta, pois o caminho escolhido poderá revelar uma postura aberta à pluralidade de indivíduos, crenças, ideias e procedimentos, ou fechada em uma bolha dogmática e pretensiosa.
Religião, cultura e psiquismo
Em primeiro plano, uso aqui a palavra Evangelho no sentido simbólico, quero dizer, como o conjunto de ensinos morais atribuídos a Jesus de Nazaré e registrados por outras pessoas. Acompanho o entendimento de Kardec e penso que toda a mensagem evangélica tem a prática do amor e da humildade como núcleo central. Isso é uma orientação que podemos (acredito que devemos) usar no trato com os Espíritos. Falar com gentileza, acolher e validar sentimentos, ouvir mais do que falar, conversar em pé de igualdade, auxiliar sem a pretensão de resolver os problemas.
No sentido de práticas das virtudes evangélicas, penso que o Evangelho basta, pois oferece orientação segura para agir respeitosamente perante os Espíritos. Mas estendo o argumento para o fator cultural. Nós fazemos parte de uma sociedade cristã, somos criados imersos nessa mundividência. Para muitos comunicantes é a referência à Bíblia, o oferecimento de um Pai Nosso ou a figura de Nossa Senhora que lhes dá alívio e confiança no diálogo mediúnico.
Para estes desencarnados, as referências ao Evangelho são poderosos auxiliares, têm efeito psicológico positivo. Mas, considerando o comentário citado acima, é evidente que nem todo Espírito vive segundo o cânone cristão. Logo, para estes, é necessário fazer uma abordagem que use recursos do seu sistema de crença. Pensemos em alguém do Candomblé, ou da Umbanda, ou muçulmano, ateu e por aí vai. Para estes, o Evangelho não basta, nesse sentido do conteúdo em si.
Frente à diversidade e singularidade humanas, convém adaptarmos as abordagens de acordo com cada criatura, respeitando-lhe as preferências. É importante que o trabalhador da reunião mediúnica amplie seu repertório e se interesse pelas outras expressões de fé. Cada Espírito merece um diálogo que atenda às suas necessidades afetivas e psíquicas. As outras tradições religiosas têm conceitos e práticas valiosos que podemos aprender e utilizar no intercâmbio mediúnico.
Morto é gente como a gente
Ademais, penso que, para além de considerar a diversidade religiosa, os conhecimentos de psicologia são muito úteis nos diálogos com os Espíritos. Digo assim de forma genérica pois a maioria de nós que trabalha na reunião mediúnica não somos psicólogos de formação profissional. Não defendo que devamos nos atrever a agir como se fôssemos, não é isso. Entendo que informações básicas sobre emoções, motivação e relacionamentos humanos ajudam a “calibrar” abordagens de acordo com o perfil do comunicante.
Reunião mediúnica não é consultório de psicologia, embora tenha efeitos terapêuticos para os participantes de ambos os planos da vida. Nesse aspecto, observo que podemos aprimorar o que chamo de “tato psicológico”, uma maneira compassiva de receber e de conversar com os Espíritos. E conjugar a isso a assertividade, um modo franco, polido e natural de conversar com qualquer comunicante. Repare que esse conjunto de ferramentas informacionais e relacionais está além da mera citação ao Evangelho, que claramente não basta para todas as situações.
Finalmente, defendo que, para auxiliar os Espíritos no contexto da reunião mediúnica espírita, é fundamental estudar o Espiritismo. São os conceitos doutrinários bem compreendidos que permitem compreender o que se passa com o Espírito. Estou me referindo a: perispírito, natureza fluídica do mundo espiritual, desligamento dos laços entre corpo e perispírito, sensações e percepções dos Espíritos, como acontece o processo mediúnico, obsessão, reencarnação, famílias espirituais etc.
Os conhecimentos espíritas são muito importantes para entender a situação do Espírito comunicante, a dinâmica do mundo espiritual, os aspectos psicológicos da fase de adaptação pós morte, dos apegos ao mundo material e os sofrimentos decorrentes do estilo de morte. Tudo isso vai além de aplicar o Evangelho, são informações técnicas produzidas no contato mediúnico e pela teoria espírita. São ferramentas sem as quais o auxílio fica bastante restrito e precarizado, quando não inviabilizado pela ignorância e pelo medo.
Em todo caso, penso que as abordagens devem ter ênfase no cuidado e no conhecimento. Conversar com humildade, usando linguajar e ideias acessíveis ao Espírito necessitado de nossa ajuda. Este auxílio é educativo, pois nos ensina que estender a mão é dever de fraternidade. Nessa tarefa, o Evangelho poderá ser suficiente no escopo de conduta moral dos tarefeiros, mas não o é para a variedade cultural dos comunicantes e nem possui as informações de natureza mediúnica e espiritual que são necessárias para compreender e intervir eficazmente no quadro apresentado.





Continue escrevendo, as ideias são poderosas sementes que brotam sem tempo previsto, mas q sempre dão frutos.