Pessoas que agregam
- mariamagdalaam
- 21 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Por Magdala Monteiro
A conquista da evolução moral do espírito, se faz no trânsito em um corpo de carne, cujo aprendizado é através a convivência de forma humanitária.
Allan kardec nos faz refletir, através a Lei de sociedade que não é simplesmente convivendo que o ser aprende a ser ético e caridoso, mas quando se compromete moralmente com seus pares, para que se faça a construção de uma coletividade socialmente unida.
Este artigo é para se pensar sobre o papel das pessoas que sabem agregar umas às outras, consolando, amparando, mas principalmente promovendo justiça social.
“Nenhum homem possui faculdades completas; através da união social, eles se completam uns aos outros, para assegurar seu bem-estar e progredir: é por isso que, necessitando uns dos outros, foram feitos para viver em sociedade e, não, isolados.” (questão 768)
Aprofundando o estudo do Espiritismo, em sua base identifica-se que o homem não evolui isoladamente, mas ele pode compreender que a vida em sociedade é um poderoso recurso para a progressão tão desejada.
Assim sendo, ao se relacionar os seres se tornam melhores porque a vida age educativamente oferecendo oportunidades de relações humanas mais construtivas, seja no enfrentamento das lutas diárias, que promovem a conquista de virtudes como na ampliação da compreensão do que seja viver verdadeiramente o amor ao próximo.
Pessoas que sabem agregar, são aquelas que percebem como aprofundar essas relações , apesar dos desafios, dos conflitos e dos ressentimentos, motivando-se com o compromisso de crescimento moral de que estão imbuídas para um viver diário mais solidário e fraterno.
A renovação do espírito será garantida pela maturidade moral, difícil, mas não impossível de ser conquistada, partindo dos limites úteis às relações para não prejudicar o projeto de educação do ser.
À propósito, se faz necessário promover um diálogo entre a filosofia espírita e a filosofia contemporânea. Diz a visão da ética do encontro, do pensador Emmanuel Lévinas que é filosofia centrada na face do outro, que nos chama à responsabilidade antes de qualquer escolha consciente. É um não a autossuficiência do Eu. Isso contribui para reforçar a dimensão ética do encontro humano, já que o outro pede acolhimento e vamos nos dedicar a atendê-lo.
Em o espiritismo, essa ideia se converge para a questão não apenas material, mas também espiritual, quando nos responsabilizamos por certos seres que se ligam a nós.
Sendo uma ética da alteridade, onde o outro chega primeiro do que nós mesmos, investimos no cuidado, desenvolvendo a caridade nas relações humanitárias. E esse encontro primordial convoca à responsabilidade sem reciprocidade, defendendo o vulnerável e instaurando a justiça.
Léon Denis reforça essa compreensão ao associar o progresso espiritual ao serviço desinteressado. Para ele, o espírito se eleva à medida que aprende a sair de si mesmo. Agregar, nesse sentido, é um exercício de descentralização do ego, no qual o bem do outro passa a ocupar lugar legítimo nas escolhas cotidianas.
Esse fluxo natural da vida, usando a vontade, a maior potência da alma, exercitando a fraternidade, e a busca do sentido íntimo, como cita Denis através a fala de Victor Hugo, escrita no Post scriptum de ma vie:
“É dentro de nós que devemos olhar o exterior... Inclinando-nos sobre esse poço, o nosso espírito, avistamos, a uma distância de abismo, em estreito círculo, o mundo imenso.” (Cap. A Consciência. O sentido íntimo)
É na convivência entre os seres humanos, que surgem os potenciais latentes, e explorá-los sem pretextos e sem máscaras é o que importa para o desenvolvimento dos seres integrais, dedicados ao distanciamento das ações mesquinhas, grosseiras, pueris e banais.
Platão, no livro A República, ao pontuar a questão, acentua que formamos o caráter, educando as pré-disposições com as quais nascemos, umas nos são mais agradáveis que outras, então a reeducação das menos agradáveis seria o recomendável para alcançar uma vida ética .
O desafio do ser é manter a capacidade de encontrar em admirar mais em si mesmo o que lhe caracteriza quanto um ser humano: empático, gentil, atencioso, flexível.
Seguindo esse raciocínio, o ser humano se aproxima da autorrealização, certo de seu dever consigo mesmo e garantir certa tranquilidade, conscientizando-se diante das questões da vida.
Célebre frase atribuída a Cícero, orador, político e filósofo romano, nascido na Itália em 106 a.C, nos demonstra a importância de se estar humano:
“Certifica-te que és fator de soma para as pessoas de cujas vidas participas”
Isto significava para ele o não ter vivido em vão e a sua autorrealização garantida na alegria de viver, e na noção do seu dever a cumprir quanto homem público (deveres esses entendidos por ele como: ser caridoso, verdadeiro e honesto). Ao promover em si, contagiava as pessoas para serem fator de soma em suas próprias vidas.
Para refletir um tanto mais no tema, verificamos a necessidade de sentir o contágio de tais ideias para que estejamos aptos a esperançar as criaturas, encorajá-las, e mantermos o ânimo a fim de que percebam os próprios potenciais.
Importante memorizar sobre a importância de usar nossa capacidade de infundir nas criaturas que convivem conosco o amor latente, para que intuam o amor que há nelas, disponibilizando-se então a voos esplendidos.
O desejo de ser feliz é para todos, sem exceção, e essa busca está nos caminhos trilhados e construídos em conjunto, na autodescoberta de si para o aprendizado da solidariedade, da fraternidade, que abrem as portas largas da alegria de viver, de estar humano, de manter a serenidade, ao renunciar aos pensamentos mesquinhos, das ações torpes que usurpam a vontade de melhorar, e de criar recursos que favorecem o entorno.
Viktor Frankl afirma que o sentido da vida pode emergir da responsabilidade assumida diante do sofrimento alheio. Essa ideia dialoga com a proposta espírita da resignação, mas ativa, que não estimula a passividade, mas o enfrentamento consciente das dificuldades. Agregar, nesse sentido, é consolar sem estimular a fuga, orientar sem ferir o livre-arbítrio, apoiar sem anular a experiência do outro, promover o autodescobrimento de cada qual e capacitar o outro com os melhores recursos.
O universo nos favorece todo o tempo, a natureza é nossa parceira, as tarefas do cotidiano é o maior ensinante que temos, e é partindo de tais observações que aprendemos mais, porque tudo ao nosso redor tem um teor pedagógico.
Viver, trocando as lentes embaçadas para facilitar a melhor visão do entorno, alinhavando ideias, costurando novas emoções, e buscando a vestimenta ideal que será mais confortável para o caminho de evolução de todos os seres. É assim que o avanço chega, pois a consciência é de que o amparo é recíproco.
Manter o desejo de crescer no agora, olhando cada detalhe, sem as paixões vis, mas com a paixão pelos objetos de estudo e de pesquisa que formatam a renovação social e as nossas referências modificadas. Saber o que realmente importa, assimilando o bem e o desejo de servir, doando o melhor que há em nós.
Referências:
DENIS, Léon. O Problema do ser e do destino. 1.ed. Rio de Janeiro: CELD, 2011.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1a ed. Rio de Janeiro: CELD, 2008
LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Lisboa: Edições 70, 1980.
PLATÃO. A República. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001





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